20 fatos para lembrar e 10 para esquecer

A Olimpíada no Rio foi marcada por conquistas extraordinárias no esporte, organização eficiente, cerimônias memoráveis e tolerância com os que são diferentes. Confira a seguir os atletas e os epidósios que jamais serão esquecidos

20 fatos para lembrar e 10  para esquecer

Mariana Queiroz Barboza

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1. o voo de Thiago
Atletismo | Brasil

O paulista Thiago Braz, de 22 anos, fez o Brasil parar na noite de uma segunda-feira chuvosa para acompanhar as disputas de salto com vara. A tempestade que atingiu o Rio de Janeiro horas antes atrasou a final no Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão. Resultado: Thiago e seu principal rival, o francês Renaud Lavillenie, competiram quase à meia-noite. Embora o brasileiro fosse considerado uma das promessas de medalha, era improvável que superasse o recordista mundial. Thiago mostrou vocação para herói. Depois de ver o arrogante francês saltar 5,98m, arriscou um salto de 6,03m. O País vibrou. Thiago estabeleceu um novo recorde olímpico e quebrou um jejum de 32 anos – o último brasileiro a vencer uma prova olímpica no atletismo havia sido Joaquim Cruz, nos 800 metros, em Los Angeles-1984

2. O lado família do fenômeno Phelps
Natação | EUA

A participação do nadador Michael Phelps como porta-bandeira da delegação dos EUA na cerimônia de abertura da Olimpíada já anunciava que o Rio veria um Phelps diferente. Maior esportista de todos os tempos, o fenômeno nunca tinha participado de uma festa desse tipo. Como ficou evidente nos Jogos anteriores, Phelps, quase sempre com fones de ouvido, não fazia questão de parecer simpático. Mas, aos 31 anos, prestes a se aposentar, ele sabia exatamente como queria entrar para a história – e o motor desse desejo estava na plateia. Nicole Johnson e o pequeno Boomer, mulher e filho do atleta, acompanharam todas as suas competições no Parque Aquático, e expuseram ao mundo que Phelps agora é um homem família

3. Cerimônias que encantaram
Abertura e Encerramento | Rio

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A cerimônia de abertura, com um show de projeções e o desfile de talentos da música brasileira, como Paulinho da Viola, Caetano Veloso e Gilberto Gil, deixou o mundo em êxtase. Símbolos universais não faltaram. Para homenagear Santos Dumont, uma réplica de seu avião, o 14-Bis, saiu voando pela cidade. A modelo Gisele Bündchen atravessou o Maracanã representando a “Garota de Ipanema”. O encerramento não foi diferente e colocou as escolas de samba para fazer do estádio um grande carnaval

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4. Isaquias, um herói brasileiro
Canoagem | Brasil

Três medalhas no Rio e o canoísta baiano Isaquias Queiroz, 22 anos, já se tornou o maior medalhista brasileiro numa única Olimpíada. Em sua primeira participação nos Jogos, Isaquias, que superou a perda de um rim e um sequestro na Bahia, se consagrou como herói nacional. Na semana passada, as redes sociais iniciaram um movimento para homenageá-lo, colocando seu nome na Lagoa (por enquanto) Rodrigo de Freitas

5. A balada mais animada
Diversão | França

Entre as 40 casas temáticas que mostraram um pouco da cultura, gastronomia e história de cada país, a Casa da França montada na Lagoa sediou as festas mais agitadas

6. Ele venceu
Política | Rio

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, calou as críticas e os temores pré-Jogos e se transformou no principal candidato ao governo do Estado após o sucesso do evento

7. A diferença é bem-vinda
Comportamento | Rio

A Rio-2016 teve transexual na cerimônia de abertura, pedidos de casamento gay e se tornou o evento mais tolerante da história, com 51 atletas assumidamente homossexuais

8. Segurança padrão europeu
Cidade | Rio

Milhares de militares se espalharam pelos locais de competição e pontos turísticos e garantiram um evento sem episódios graves de violência

9. A marca improvável
Atletismo | África do Sul

Demorou 17 anos, mas o recorde do americano Michael Johnson nos 400m enfim foi superado – e por 15 centésimos. O dono da proeza é o sul-africano Wayde Van Niekerk

10. Bolt à brasileira
Atletismo | Jamaica

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O velocista jamaicano Usain Bolt, de 30 anos, já era um atleta consagrado antes de desembarcar no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Ainda assim, o recordista mundial nos 100 e nos 200 metros rasos chegava cercado de dúvidas. Muitos achavam que ele perderia o título de homem mais rápido do mundo, porque ainda se recuperava de uma lesão na coxa. Uma vez no Rio, a lenda do atletismo visitou crianças numa favela, distribuiu sorrisos e se deixou envolver pela bandeira do Brasil. Entrou no Engenhão aos gritos de “Bolt! Bolt! Bolt”, foi o mais ovacionado toda vez que apareceu nos telões do estádio, mas teve o pedido de silêncio respeitado sempre que se preparava para a largada. Em retribuição, deu aos brasileiros a chance de vê-lo de perto ganhando o tricampeonato olímpico em três provas diferentes. Na comemoração, se jogou na noite carioca, dançou funk e levou uma brasileira para conhecer a Vila Olímpica

11. A vitória da persistência
Boxe | Brasil

Aos 27 anos, o boxeador baiano Robson Conceição chegou ao Rio tentando mudar uma história olímpica que incluía duas eliminações precoces e controversas: em Londres e Pequim, perdera para os donos da casa por decisão dos árbitros. Dessa vez, em casa, o ouro veio. A vitória sobre o francês Sofiane Oumiha foi inconteste

12. A sensacional pista de ciclismo
Velódromo | Rio

Última obra a ser entregue, o velódromo se tornou um dos locais de competição mais vistosos. A arena sempre lotada testemunhou a quebra de 26 recordes olímpicos ou mundiais

13. A nova Nadia Comaneci
Ginástica | EUA

No Rio, a americana Simone Biles, 19 anos, quase chegou à perfeição da ex-ginasta romena Nadia Comaneci. Terminou a competição com quatro ouros e um bronze

14. Tradição mantida
Vela | Brasil

O ouro de Martine e Kahena na vela manteve o País no topo da modalidade. Há 20 anos, os velejadores brasileiros não saem de uma Olimpíada sem subir ao pódio

15. O salto de Diego e Flávia
Ginástica | Brasil

O melhor desempenho da história da ginástica artística brasileira teve dobradinha no pódio com Diego Hypolito e Arthur Nory e a pequena Flávia Saraiva em quinto lugar

16. Primeiras medalhas históricas
Pioneirismo | Mundo

As delegações de Fiji, Kosovo e Jordânia conquistaram no Rio as primeiras medalhas de sua história olímpica. Em Fiji, o ouro no rúgbi rendeu até um feriado nacional

17. A torcida como protagonista
Público | Brasil

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Como em nenhuma outra Olimpíada, a calorosa torcida nas arenas cariocas fez a diferença no Rio até em partidas de esportes tradicionalmente silenciosos, como o tênis, o tiro esportivo e o tênis de mesa. Na arena do vôlei de praia, onde Alison e Bruno Schmidt conquistaram o ouro conduzindo o público como maestros, a atmosfera festiva e suas coreografias produziram um show de imagens para as tevês

18. Neymar, o badboy preferido
Futebol | Brasil

De férias do Barcelona, o camisa 10 Neymar, 24 anos, passou boa parte do período pré-olímpico na balada. Recebeu críticas pelo comportamento extra-campo e manteve uma relação tensa com a imprensa nos primeiros dias de torneio, quando a seleção brasileira empatou com Iraque e África do Sul. A reviravolta começou na classificação para a semi contra Colômbia e nos 6 a 0 sobre Honduras. Coube ao capitão cobrar o pênalti na final contra a Alemanha que rendeu um ouro inédito

19. A vez da favela
Judô | Brasil

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Da favela Cidade de Deus, mundialmente conhecida pelo filme homônimo de Fernando Meirelles, à primeira medalha de ouro do Brasil, a judoca Rafaela Silva foi um dos grandes nomes da Olimpíada. Com sua história de redenção, ela deve inspirar uma geração de atletas. Pobre, negra e homossexual, foi atacada nas redes sociais por preconceituosos de todo tipo depois de ser desclassificada em Londres-2012 por um golpe irregular. Teve depressão, pensou em desistir do esporte. Sua resposta veio no tatame. Como atleta militar, Rafaela também representou o sucesso do programa das Forças Armadas para o alto rendimento. Das 19 medalhas conquistadas pelo Brasil na melhor participação do País em Jogos Olímpicos, 13 são de militares

20. O transporte que funciona
Mobilidade | Rio

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A inauguração de uma nova linha de metrô e sistema de BRTs fez a maioria dos torcedores optar pelo transporte público, rápido e seguro, para ir aos jogos. Com a cidade lotada por mais de um milhão de turistas, o BRT transportou 9,6 milhões de passageiros entre os dias 5 e 18 de agosto. Só na sexta-feira 12, foram 855 mil pessoas que utilizaram o sistema de transporte rápido por ônibus, o equivalente a 31% a mais que os usuários de um dia comum. Apesar dos atrasos nas obras e das expectativas pessimistas, o Metrô do Rio inaugurou a linha 4, que liga a Zona Sul à Barra da Tijuca, a tempo da Olimpíada. Para complementar, até os taxistas mostraram uma eficiência incomum

…e 10 para esquecer

Nem tudo deu certo. Como acontece em toda Olimpíada, a do Rio também enfrentou dificuldades. A seguir, os fatos que ficarão no limbo da história

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1. Os otários americanos
Natação | EUA

Quando o nadador americano Ryan Lochte, 32 anos, deu uma entrevista sobre um assalto que teria sofrido no Rio, algo soou estranho. Ouro no revezamento 4 x 200 m livre, Lochte vangloriou-se por não ter obedecido a um bandido armado que ordenou que deitasse no chão, diferentemente dos outros três colegas que estavam com ele. O nadador aceitou as desculpas do comitê e voltou para os EUA. Mas, em cinco dias, a polícia do Rio desmontou a farsa. Os atletas beberam demais numa festa, conheceram umas brasileiras e terminaram a noite depredando um posto de gasolina. Pensaram que estavam de férias no Brasil e que aqui, como tudo é uma bagunça, poderiam mentir para não magoar suas namoradas. Inventor da versão fantasiosa, Lochte foi indiciado por falsa comunicação de crime e perdeu seus patrocínios

2. O fiasco da natação brasileira
Natação | Brasil

Um ano após deixar o Pan de Toronto com 26 medalhas e sua melhor campanha, a natação brasileira foi esmagada no Rio e não subiu ao pódio nenhuma vez. O pior resultado em 12 anos já provocou cortes de investimento para a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos

3. Maus perdedores
Comportamento mundo

Eles deixaram o Rio falando mal dos brasileiros, dos adversários e dos juízes, quando podiam simplesmente ter aceitado a derrota. Para o francês Renaud Lavillenie, perder para Thiago Braz só foi possível porque as vaias da plateia o atrapalharam. Lavillenie foi além, comparando a torcida brasileira a “nazistas.” A goleira americana Hope Solo chamou as suecas de “covardes” e os treinadores de luta olímpica da Mongólia tiraram a roupa por discordarem dos árbitros

4. A repercussão machista
Comportamento | mundo

Embora tenham se destacado pela quebra de recordes e paradigmas – atletas muçulmanas fizeram história ao competir com véus –, as mulheres sofreram com a repercussão machista de suas conquistas. A nadadora húngara Katinka Hosszu viu suas quatro medalhas (três de ouro) serem atribuídas ao marido e treinador, Shane Tusup. Já o momento vitorioso da chinesa He Zi, prata nos saltos ornamentais, foi eclipsado por um pedido de casamento. E, como de costume, elas tiveram sua aparência escrutinada. Fora do padrão de corpo musculoso, a ginasta mexicana Alexa Moreno foi chamada de gorda

5. O mistério da piscina verde
Infraestrutura | Rio

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A mudança de cor da água da piscina do Centro Aquático Maria Lenk, onde ocorreram as provas de saltos ornamentais e polo aquático, levou um dia para acontecer, mas quatro dias para ser diagnosticada. Uma falha de manutenção provocou a proliferação de algas no local e um constrangimento mundial. Para que o azul voltasse, o comitê organizador foi obrigado a trocar a água de uma das piscinas numa operação que envolveu mais de 3,7 milhões de litros do líquido – uma mancha para um evento que queria ser lembrado pela sustentabilidade

6. As ausências de espírito olímpico
Judô | Egito

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O espírito olímpico se caracteriza pela solidariedade com os adversários e a paz, ainda que temporária, entre os povos. E o Rio mostrou que ele esteve presente na maior parte do tempo, como na prova dos 5.000 m feminino, em que a corredora neozelandesa Nikki Hamblin derrubou sem querer a americana Abbey D’Agostino e parou para ajudá-la a se levantar. As duas saíram aplaudidas. O tratamento dado a alguns atletas israelenses, porém, manchou a participação de seus adversários. Após a derrota para o israelense Or Sasson, o judoca egípcio Islam El Shehaby se recusou a cumprimentá-lo. El Shehaby acabou vaiado pela torcida na Arena Carioca 2. Outro episódio lamentável ocorreu a caminho do Maracanã para a cerimônia de abertura, quando a delegação do Líbano se recusou a dividir o ônibus com a de Israel. O chefe libanês chegou a impedir a entrada dos israelenses na porta do veículo e foi advertido pelo Comitê Olímpico Internacional

7. A queda da câmera
Acidente | Rio

Sustentadas por cabos de aço, as câmeras oficiais da Olimpíada geraram imagens impressionantes. Até que uma despencou no Parque Olímpico e feriu sete pessoas

8. O “dream team” que não fez sonhar
Basquete | EUA

Isolado num navio transatlântico, o time de basquete dos Estados Unidos chegou ao Brasil sem suas maiores estrelas e, blasé, não empolgou as arquibancadas

9. O ataque ao ônibus oficial
Segurança | Rio

Um ônibus com jornalistas brasileiros e estrangeiros foi atingido por uma pedra no caminho entre Deodoro e a Barra. O episódio teve grande repercussão internacional

10. Os apartamentos inacabados
Infraestrutura | Rio

O impasse diplomático com a delegação da Austrália às vésperas dos Jogos mostrou que os apartamentos da Vila Olímpica estavam aquém do prometido pela organização

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Fotos: FRANCK FIFE/AFP PHOTO; ilustração sobre foto de Eduardo Knapp/Folhapress e frederic jean/Kai Pfaffenbach/REUTERS; Quinn Rooney/Getty Images/MARTIN BUREAU e Matt Dunham/AFP PHOTO; Markus Schreiber