Os bons ventos voltaram

Com a inflação mais baixa desde 1999 e alta na geração de empregos formais, economia mostra que recuperação já começou

Os bons ventos voltaram

Bárbara Libório

Há motivos para confiar no aquecimento econômico. Uma pesquisa realizada pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) na semana passada mostrou que 47% dos brasileiros estão otimistas quanto à retomada da economia a partir de 2018. Depois de dois longos e difíceis anos de recessão, a crença na recuperação econômica se justifica: os preços estão caindo, o crédito está mais barato e o País voltou a abrir vagas de emprego.
Em 2015, quando a inflação anual ultrapassava os 10%, era impossível acreditar que, dois anos depois, o índice ficaria abaixo do centro da meta. Os indicadores positivos mostram que a economia, enfim, está reagindo — uma recuperação lenta, porém palpável.

Para os consumidores, as melhoras começam a ser sentidas no bolso. A inflação anual, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, alcançou o patamar mais baixo desde fevereiro de 1999.

O setor de alimentos acumula três meses de deflação, o que demonstra que a queda de preços não está relacionada apenas ao clima ou à sazonalidade. Até o crédito ficou mais barato. A queda da inflação puxou para baixo a taxa básica de juros, a Selic. Em 2016, quando o presidente Michel Temer chegou ao governo, ela estava a 14,25%. Agora, a 9,25%, a Selic ficou abaixo de dois dígitos pela primeira vez em quatro anos.

Isso fez com que os grandes bancos públicos e privados também diminuíssem suas taxas de juros para linhas de crédito pessoal e empresarial. “Vimos mudanças relevantes a partir da troca da equipe econômica”, diz Paulo Azevedo, professor de estratégia financeira do Ibmec SP. “Dadas as condições econômicas, não havia como fazer um milagre, mas a equipe mostrou austeridade, buscando mecanismos para diminuir gastos e aumentar a arrecadação, o que o mercado tem visto com bons olhos.”

“A equipe econômica mostrou austeridade, buscando mecanismos para diminuir gastos e aumentar a arrecadação” Paulo Azevedo, professor do Ibmec SP

Um dos sinais da caminhada rumo ao fim da recessão foi o resultado positivo do PIB no primeiro trimestre, que cresceu 1%. Foi o primeiro resultado positivo em oito trimestres. Agora, o País precisa entrar em um ciclo virtuoso: restabelecer a confiança do consumidor, que passará a comprar mais, fazendo com que as empresas aumentem a produção, a indústria diminua sua capacidade ociosa e o País gere empregos.

É um ótimo sinal que, pelo quarto mês consecutivo, o emprego formal, com carteira assinada, registre elevação. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados pelo Ministério do Trabalho na quarta-feira 9, em julho deste ano o Brasil gerou 35.900 vagas.

A outra boa notícia é que, após o bom desempenho da agricultura este ano, a indústria também passa a dar sinais de recuperação.

Tanto que a maior parte dos empregos em julho foi criada pela indústria de transformação. “A recessão que estamos vivendo foi longa e bastante dura, por isso, assim como a retomada econômica, a retomada do emprego vai ser lenta e gradual”, afirma Marcel Balassiano, pesquisador da área de Economia Aplicada do FGV IBRE. Segundo o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, não veremos números negativos de geração de postos até novembro.


DEMANDA AQUECIDA A indústria de transformação foi o setor que mais gerou empregos formais em julho (Crédito:Rodolfo Buhrer)

FGTS E PIB

Para 2017, o governo prevê que o PIB cresça 0,5%. O avanço também é fruto de uma medida bem-sucedida do Planalto: a liberação do saque das contas inativas do FGTS.

Segundo o Ministério do Planejamento, o impacto dos saques no PIB pode somar 0,61 ponto percentual. Na prática, sem a injeção desses recursos, o resultado poderia ser de retração de 0,11%. “O FGTS foi uma medida muito importante não apenas para estimular o consumo, mas para diminuir o endividamento das famílias brasileiras”, diz Azevedo, do Ibmec.

O mercado prevê uma alta menor para o PIB em 2017: 0,38%. “A economia foi afetada ao longo desse período por diferentes crises políticas, a última ainda este ano, com a delação da JBS, mas ainda assim teremos um resultado melhor do que o do ano anterior”, afirma. “Precisamos primeiro parar de cair para, então, começar a crescer.” Um caminho que já começamos, desta vez de maneira consciente e sustentável.

IstoÉ Dinheiro