O que o paciente borderline e a sua família podem esperar de um tratamento especializado

Por Eliana Krambek

O tratamento do paciente borderline pode gerar muitas angústias e expectativas para ele e seus familiares. Quando procuram um atendimento especializado, em geral, já estão cansados e desacreditados que possa existir uma possível melhora, isto acontece porque vários profissionais foram consultados, sendo que alguns deles erraram no diagnóstico e no tratamento. Além disso, há também aqueles profissionais que, de forma responsável, os encaminharam por não possuírem um atendimento especializado. Os dois cenários reforçam a crença de que não há solução para estes casos, postergando assim, o sofrimento do paciente.

Promover a evolução deste paciente não é tarefa fácil, para isso é fundamental trabalhar a dinâmica dele e do ambiente familiar, visto que um influencia o outro.

A família, ora está muito distante, ora numa excessiva interferência na vida uns dos outros, abusam de críticas e acusações. Nestes momentos, podem utilizar um tom de voz e palavras agressivas, o que chamamos de emoção expressa, é uma comunicação que vem “sem filtro”, se pudessem esperar a raiva passar, as palavras seriam outras e o tom também. Eles acreditam que todo o problema familiar está ligado ao transtorno e provocam o sentimento de culpa que o indivíduo não sabe como lidar.

O paciente apresenta dependência emocional e financeira da família. Ele possui um sofrimento psíquico intenso, diferente da maioria das pessoas. Há também o comportamento de boicotar todas as áreas de sua vida, fazendo com que fique estagnada.

Cronologicamente é um adulto, muitas vezes bastante inteligente, porém sente e sofre de forma muito parecida com a criança ou com um bebê. Emocionalmente, os recursos que utiliza são de uma fase muito primitiva, um funcionamento à base do “oito ou oitenta”, do amor ou do ódio, totalmente bom ou totalmente mau (Sassi; Kernberg; Gabbard)). É uma forma absoluta de vivenciar o mundo, muito diferente do esperado para alguém da sua idade, que relativiza algumas verdades e entende que uma pessoa não é totalmente má ou totalmente boa, por exemplo.

Sua rede de relacionamentos normalmente está restrita à família. Possui um comportamento recorrente de isolar-se, afastar-se e ainda provocar o afastamento das pessoas, isso faz com que acabe perdendo o melhor alimento para o mundo mental e emocional, que favorece o lapidar das emoções e da personalidade. Quem fica muito sozinho, acaba emocionalmente empobrecido e pode adoecer. Como diz Sassi: “O alimento para o corpo é comida e para o mundo mental é gente”.

O primeiro ano do tratamento é o período onde acontecem o maior número de resistências e dependendo do paciente este tempo pode se estender. Apresenta muitas faltas, pode não fazer o uso correto das medicações (não toma ou ainda toma em excesso), compra medicações no “mercado negro”, etc

Ao longo do processo podem ocorrer recaídas no uso de álcool e drogas, compras abusivas no cartão de crédito, sexo desprotegido com desconhecidos, automutilações, tentativas de suicídio, dentre outros comportamentos impulsivos.

Não é tarefa fácil para este perfil dividir com o terapeuta os pensamentos e sentimentos que possui, pois é um paciente de difícil acesso. Isso ocorre em função das fantasias que tem a respeito de si mesmo e dos outros. Ele teme que o profissional e a equipe possam julgá-lo ou até mesmo abandoná-lo, como fez a maioria de seus relacionamentos. Se estas fantasias não forem trabalhadas, a terapia e o tratamento podem não acontecer.

A melhora começa quando ele encontra um lugar no qual se sente ouvido e entendido. Então, diminuem as automutilações e as tentativas de suicídio. As pequenas mudanças acontecem em “conta gotas”, alternando com as recaídas no modo “dá dois passos e volta um”.

O desenvolvimento da autonomia emocional e financeira, a conquista da confiança dos familiares e a manutenção dos laços afetivos, acontecem gradativamente ao longo dos anos como resultado das reflexões feitas nas terapias individual e familiar, e também das orientações e prescrições do médico psiquiatra.

Alguns pacientes conseguem a melhora geral na qualidade de vida em torno de seis anos de tratamento. Nos últimos tempos, para estes pacientes, temos arriscado em falar sobre cura, pois obtiveram uma mudança significativa na maneira de pensar a vida e conduzi-la, e passaram a não mais preencher os critérios para o transtorno.

Há pacientes que podem levar mais tempo para esta conquista e outros podem tornar-se crônicos, permanecendo dependentes do tratamento para sobreviverem.

Os fatores que contribuem para a melhora significativa do paciente são: uma equipe especializada que trabalhe afinada entre si e com um método específico; familiares que incentivem e participem do processo, seja através da terapia familiar ou da presença quando solicitada; e finalmente, o paciente que desde o início apresenta uma capacidade maior para falar e comparecer à terapia e no tratamento de um modo geral.

Sobre Eliana Krambek

Graduada em Psicologia pela UEM – Universidade Estadual de Maringá, em 1999. Possui especialização em Psicoterapia da Infância e Adolescência, pelo CESUMAR – Centro Universitário de Maringá. Especialista no Estudo do Vínculo mãe, bebê e família, pelo IPPIA – Instituto de Psicoterapia e Psiquiatria da Infância e Adolescência. Possui formação em psiquiatria e psicoterapia da Infância e Adolescência, pelo IPPIA. Psicóloga e supervisora clínica no Ambulatório Integrado de Transtorno de Personalidade e do Impulso IPq – HCFMUSP, São Paulo –SP e atende em consultório particular.

Referências bibliográficas

1- Gabbard, Glen O. Transtorno de Personalidade Borderline do Grupo B: Borderline, in: Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. 5. Ed. – Porto Alegre: Artmed, 2016.

2- Gomes, Heloisa Szymanski Ribeiro. Terapia de família. In: Psicol. cienc. prof. vol.6 no.2 Brasília, 1986.

3- Joseph, Betty. O paciente de difícil acesso (1975), in: Melanie Klein Hoje. Desenvolvimento da teoria e da técnica. v.2. Artigos predominantemente técnicos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1990.

4 – Minuchin, S. Famílias: Funcionamento e Tratamento. Trad. J.A. Cunha. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1982.

5 – Zito, Daniely Marin; Sassi Junior, Erlei. Psicoterapia Psicodinâmica Modificada Para Transtorno de Personalidade Borderline: O Método.

6 – http://personalidadeborderline.com.br/