Aposta na Democracia

Por Rafael Gioielli

A começar pela dinâmica das campanhas e culminando no recado que veio das urnas, as eleições de 2018 já se tornaram um marco importante para a nossa democracia. De partida, sem a doação de empresas, partidos e candidatos fizeram movimentos enxutos, sem as pirotecnias e os megashows que caracterizaram as últimas disputas presidenciais. A propaganda em rádio e TV, bem como os debates organizados pelas emissoras, tiveram pouca relevância. Ao mesmo tempo, as mídias sociais ganharam um protagonismo ímpar e emergiu um perigoso processo de desinformação promovido pelas chamadas fake news. No rescaldo da Lava Jato, da crise econômica e dos escândalos de corrupção, uma parcela importante do eleitorado permaneceu descrente e apática durante todo o processo. Uma outra se entregou a motivações de cunho passional, demonstrando-se pouco preocupada com análise de dados e fatos.
Felizmente, em meio ao descrédito reinante, destacaram-se alguns movimentos para qualificar o debate eleitoral. Duas iniciativas merecem ser mencionadas. A RAPS – Rede de Ação Política pela Sustentabilidade –, projeto apoiado pelo Instituto Arapyau, da família de Guilherme Leal, reuniu postulantes ao executivo e legislativo, de diversos partidos e estados, para debater e elevar o compromisso dos futuros mandatários com o desenvolvimento sustentável. Consolidou um total de 26,6 milhões de votos e elegeu 36 candidatos, entre eles dois governadores. Já no campo do apoio ao eleitor, o Guia do Voto, iniciativa de caráter apartidário empreendida pela Votorantim em meio às comemorações de seu centenário, alcançou quase 200 mil usuários e chegou a liderar a lista de aplicativos mais baixados no Brasil. Por meio de ferramentas interativas, o cidadão era convidado a participar de uma jornada educativa que começava com testes sobre o sistema eleitoral e evoluía para perguntas que indicavam o seu nível de alinhamento com os diversos partidos. A etapa final era a priorização de causas e dos candidatos mais alinhados a elas.

Se não foram capazes de reverter todo o desânimo que se viu nas eleições, as iniciativas acima merecem reconhecimento principalmente por nos lembrarem que a aposta na democracia vale à pena. E isso não é nada trivial nos dias de hoje. Afinal, como aponta o historiador Yuval Harari, em seu mais recente livro – 21 lições para o século XXI – o descrédito por que passam as eleições e a política de uma forma geral é apenas um dos sintomas do colapso do liberalismo. Para o autor, se não estivermos atentos à crise que a democracia enfrenta, corremos o risco de nos entregar a um perigoso e nostálgico sonho que mistura nacionalismo, religião e autoritarismo.

Se o bombardeio diário nas redes sociais naturaliza a crítica aos direitos humanos, à liberdade de imprensa, aos movimentos sociais e à agenda ambiental, é importante que o setor filantrópico e da responsabilidade social ampliem sua aposta no fortalecimento da cidadania. Paixões à parte, a história ensina que a economia também precisa dos princípios da governança democrática para prosperar e se fortalecer. As forças produtivas devem ficar atentas pois, mesmo com suas inúmeras imperfeições, o pacote da democracia liberal ainda é a melhor alternativa que temos. Diante disso, iniciativas republicanas e construtivas como a RAPS e o Guia do Voto precisam servir de inspiração e se multiplicar nos próximos meses e anos. Afinal, quando se fortalece a democracia, todos ganham.

Eu, Rafael Gioielli sou gerente geral do Instituto Votorantim

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