O desmatamento e o dilúvio de morte do rio Paraná

O desmatamento e o dilúvio de morte do rio Paraná

6 de abril de 2019 Off Por raysantos

Carlos Alberto dos Santos Dutra e José Melo de Carvalho/Instituto Cisalpina.

A Coluna Rural do nosso amigo José Melo de Carvalho hoje contempla uma bela árvore que parece saudar a todos nos dando um salutar bom dia. Ele é um apreciador da natureza e nos convida também  dividir essa percepção e sensibilidade com ele.

Logo, entretanto, uma sombra sorrateira precipita-se sobre seu rosto: “A Fibria derrubou milhares dessas árvores, com suas acessorias especializadas, assinadas por agrônomos e engenheiros florestais, sem ética profissional”, queixa-se.

De fato, contando com a anuência dos órgãos governamentais, União, Estado e Município, eis que a liberação veio célere e frouxa. E o que se viu, aos olhos do ambientalista engajado foi: “Mandaram assassinar milhares destes belos exemplares da natureza, presente de Deus”.

Nem mesmo a estreita faixa de Mata Atlântica existente na região foi poupada.

E o dedo em riste do ecologista aponta no horizonte para o “cemitério” verde espalhado pelo campo, torrando ao sol, como que bradando ao céu uma prece de lamento, dor e morte.

“Não aproveitaram nada. Sequer autorizaram o uso de madeiras nobres, preservadas por lei, que foram criminosamente tombadas”, o que permitiria, com seu aproveitamento, a geração de emprego e renda para os pequenos proprietários e impostos para o município.

O ambientalista olha para as espécies caídas ao longo do caminho: Cedros (Cedrela fissilis), Ipê branco (Tabebuia roseo-alba), Ipê amarelo (Handroanthus albus), Garapa (Apuleia leiocarpa), pés de Peroba (Aspidosperma polyneurun), Coco nativo (Cocos nucifera), Angico branco (Anadenanthera colubrina), Angico preto (Anandenanthera macrocarpa), entre outras: “Um verdadeiro holocausto!”, declara.

Realidade que se assemelha em muito o tempo vivido por muitos ribeirinhos quando a Companhia Energética de São Paulo-CEP pramovou a devastação de mais de dois mil pés de mangueira (Mangifera indica L.) e outras árvores frutíferas ao longo da barranca do rio Paraná e rio Verde durante o desmatamento provocado na região que antecipou a inundação do reservatório da Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Mota (Porto Primavera).

As árvores continuam lá, jogadas, enquanto surge uma nova investida, e o temor assombra logo adiante: Trata-se novamente a CESP, agora de outros donos, a Votorantim S.A., e o risco de novamente o desequilíbrio ambiental mexer com o ecossistema da região, alterando-o significativamente.

É o que declara o técnico em agropecuária José Melo de Carvalho ao informa a pretensão da Eletrobrás de licenciar uma nova cota de alagamento para a usina Porto Primavera, passando da cota 257 para 259, inundando nova área no entorno da Reserva Cisalpina.

Para o meio ambiente isso representa mais um dilúvio de morte que se aproxima.

Pelos cálculos do ambientalista será inundada uma área de 40 mil hectares que atingirá além do maciço florestal que soçobrou, também o restante de alguns barreiros que ainda hoje abastecem as olarias e cerâmicas do Novo Porto João André que também fazem divisa com a Reserva Cisalpina.

Diminuindo o barro, diminui a produção, e em consequência, assevera o desemprego: Águas trazendo a morte da natureza e morte de vidas humanas porque as impede de viver.

A inundação que está sendo planejada, uma vez realizada, irá cobrir parte significativa da Reserva Cisalpina, preocupam-se os membros do Instituto Cisalpina de Pesquisa, Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural de Brasilândia.

Isso porque ali se encontram centenas de animais silvestres recolhidos da região durante a fase de alagamento que para lá foram transferidos: antas (Itapirus terrestri), servos do pantanal (Blastocerus dichotomus), veado mateiro (Mazana americana), onça parda (Puma concolor),  onça pintada (Pantera onça), queixada (Tayassu pecari), catetos (Pecari tajacu), capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), tatu canastra (Priodontes maximus), tatu peba (Euphractus sexcinctus), tatu galinha (Dasypus novemcinctus), entre tantos outros.

Perde o meio ambiente pela força das águas o último reduto de mata nativa e corredor ecológico da margem direita  do rio Paraná que ainda se recupera da agressão sofrida pela ação antrópica praticada na última década. Recuperação que precisa ser garantida e preservada por todos nós.

Brasilândia/MS, 5 de abril de 2019
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