Como um comediante de TV deve ser o próximo presidente da Ucrânia

Volodymyr Zelensky se tornou viral no YouTube por conta de um vídeo em que discursa contra a corrupção no país do Leste Europeu

Crédito: divulgação

Antes de decidir concorrer à presidência da Ucrânia, Volodymyr Zelensky chegou a interpretar um presidente em uma série televisiva chamada “Servant of the People” (“Servo do Povo”), sobre um professor escolar cujo discurso sobre a corrupção se tornou viral no Youtube e o impeliu a tentar o cargo real.

Agora, Zelensky, um comediante e ator conhecido no país, deve ser o novo presidente da Ucrânia, depois de vencer o primeiro turno das eleições, no dia 31 de março, por 30% de votos.

Sua vitória, porém, já era prevista pelos estudos de opinião: uma pesquisa publicada no começo do mês passado pela Rating mostrava que Zelensky tinha o apoio de 25% do eleitorado, seguido pelo impopular presidente atual, Petro Poroshenko, com 17%, e pela antiga primeira-ministra, Yulia Tymoshenko, cuja estrela perdeu brilho nos últimos anos, com 16%.

Zelensky atribui sua ascensão improvável a uma demanda por transparência na política ucraniana, que permanece envolvida em escândalos de corrupção cinco anos depois que uma revolução em nome da democracia e transparência depôs o então presidente pró-Rússia Viktor Yanukovych. “O humor sempre foi um sinal de inteligência”, se defendeu durante uma entrevista recente a canais estrangeiros, em Kiev.

Muito do que acontece na Ucrânia pode impactar na Rússia, com quem mantém uma guerra há cinco anos e que mantém uma grande (e tensa) fronteira. A nova liderança em Kiev pode reviver negociações paralisadas para finalizar a atual guerra, em que mais de 13 mil pessoas já foram mortas por forças russas que tomaram o controle do nordeste do país, em 2014 — um tema que voltou com força neste ano desde os jornais até aos estudos de atualidades para o ENEM 2019.

O presidente atual, Poroshenko, entrou em desacordo com os partidos nacionalistas no parlamento sobre um acordo de paz em 2015, do qual eles discordam. A saída da liderança pós-revolução, que a Rússia acusou de chegar ao poder por meio de um golpe de Estado, pode oferecer uma saída amigável para Moscou encerrar o conflito com Kiev e para aliviar algumas sanções econômicas do Ocidente.

Uma eleição livre e uma transição democrática possível agora podem levar a Ucrânia a ganhar credenciais para uma aproximação comercial e uma integração política com a União Europeia, um objetivo dos manifestantes que tomaram as ruas do país em 2014 em oposição ao estilo autoritário dos russos.

As críticas de Zelensky não foram compradas pelos setores mais ricos, mas analistas dizem também que seu sucesso é um indicativo do poder dos interesses comerciais na Ucrânia: seus programas eram transmitidos no canal de TV de Ihor Kolomoisky, o oligarca que ele encenava em um dos seus personagens, que saía à procura de um banco perdido chamado “Privat” (“privado”) e acabava caindo em um bordel.

Kolomoisky está envolvido em um escândalo bancário com o PrivatBank que custou US$ 5,6 bilhões (R$ 21,6 bilhões) à Ucrânia — uma quantia assustadora para um país cujo governo se sustenta por meio de empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por meio do seu programa, Zelensky também tem sido um parceiro de negócios de Kolomoisky, e não à toa seus críticos dizem que sua chegada ao poder pode manter a influência política do banqueiro na Ucrânia e ajudá-lo a resolver as disputas judiciais em seu favor. O presidente eleito negou que é um “boneco” dos envolvidos no escândalo e defendeu suas qualificações como comediante para liderar o país envolvido em uma guerra militar e em um conflito entre o Ocidente e a Rússia.

Tymoshenko, que serviu como primeira-ministra e foi derrotada na eleição, estava concorrendo ao cargo pela terceira vez. O antigo governo, alinhado com a Rússia, a manteve presa entre 2011 e 2014, quando também foi alvo de campanhas ofensivas ordenadas pelo presidente deposto, Yanukovich. Ela só saiu da cadeia no episódio conhecido como “Maidan Revolution”, quando o então governante se exilou em território russo.

Nessa eleição, porém, ela seguiu sendo alvo de campanhas subliminares para evitar sua chegada ao cargo: entre os 12 candidatos no primeiro turno, um deles era o ex-trabalhador da construção civil chamado Yuri Tymoshenko — o nome igual, diz ela, não é coincidência: é uma tática dos opositores para confundir os eleitores no dia da votação. A estratégia é comum na política ucraniana.

Zelensky baseou toda sua campanha no personagem ficcional do professor escolar que se torna presidente. Ele filmou o último capítulo do programa durante o processo eleitoral — ele foi ao ar nas vésperas da votação. Outdoors surgiram nas ruas de Kiev dizendo “o presidente é o servo do povo”, se referindo ao nome do programa e promovendo o candidato ao mesmo tempo.

Nas últimas aparições antes da votação, Zelensky apareceu confrontando a oligarquia ucraniana, expulsando oficiais corruptos e, em uma cena, usa um termo vulgar para pedir ao FMI que pare de impor políticas econômicas à Ucrânia.

A crítica ao fundo tem uma explicação: o FMI parou momentaneamente de desembolsar recursos para a Ucrânia durante o escândalo do PrivatBank. Por meio do FMI e de ajuda bilateral, dinheiro de impostos pagos por estadunidenses, europeus e outros doadores ocidentais, desapareceu na questão do banco — recursos que poderiam, na visão dos críticos, construir hospitais, escolar ou financiar o exército do país contra os separatistas apoiados pela Rússia.

Em uma entrevista antes da eleição, Zelensky disse que o dinheiro deveria voltar aos seus antigos donos se a justiça acusar Kolomoisky, mas sugeriu que sua administração deixará o caso para as autoridades legais. O plano inicial dele, no entanto, continua: o PrivatBank será nacionalizado.


Débora Ramos  Link Builder 
+55 11 3125-1600 (Ramal 24)

Conversion
Facebook
instagram-color-circle.png
LinkedIn
LinkedIn

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *