Tá lá o corpo estendido no chão

Tá lá o corpo estendido no chão

13 de julho de 2019 0 Por raysantos

No ano de 1975 os compositores João Bosco e Aldir Blanc lançaram um LP intitulado Caça à Raposa. Entre as músicas, uma delas recebeu o título de De frente pro crime e iniciava com a expressão: Tá lá o corpo estendido no chão…

É essa a sensação que tive ao contemplar a página cinco do jornal Dia a Dia naquele dia 11 de junho de 2013. Na época em que escrevi essa crônica, dizia eu que: mesmo depois de passado um mês do ocorrido, a imagem do velho Jatobazão combalido, ventre e entranhas expostas, braços e rosto dilacerados, era impossível não falar sobre ele.

Confesso que na época não tive coragem de pedir ao editor-chefe daquele periódico, jornalista Ray Santos, a foto daquele corpo estendido no chão. Depois acabei encontrando outras fotos na internet no site do Jornal do Povo e também do próprio Dia a Dia, imagens do velho Jatobá, numa cena muito triste, de cortar o coração. O título abaixo de uma foto publicada num desses jornais, expressava lacônica o sentimento dos três-lagoenses: Infelizmente a imagem acima foi o que restou do nosso querido Jatobazão.

Bem sabem os mais antigos que aquele antigo pé de Jatobá (Hymenaea courbaril), localizado no canteiro central da Avenida Filinto Muller, integrava o patrimônio do município e que havia sido tombado como Patrimônio Histórico de Três Lagoas, através do Decreto nº 06/82, de 04 de maio de 1982, possivelmente a primeira árvore tombada para o patrimônio público em Mato Grosso do Sul, feito este inaugurado pelo então Prefeito de Três Lagoas, Lúcio Queiroz Moreira (1979-1982).

No dia 14 de março de 2013, entretanto, passados pouco mais de 30 anos de seu tombamento histórico, numa tarde serena de terça-feira do inverno que recém se aquerenciava na terra de Ramez Tebet, eis que o sonho de imortalidade do velho Jatobá capitulou. Foi-se o corpo, pois a alma, há muito já havia partido, diria o poeta gaúcho, conterrâneo deste escrevinhador, Glauco Saraiva.

Naquela data fatídica, coube à então prefeita Marcia Moura (PMDB) a tarefa de perpetuar na história o declínio daquele gigante: revogou o antigo decreto que garantiu por algum tempo ao velho Jatobá a ilusão de se tornar perene e receber ainda em vida um pouco mais, despacito, as honrarias do reconhecimento oficial.

Por aqueles galhos, papagaios e tucanos, araras e joão-de-barro, quantos pássaros, nos seus braços, não encontraram abrigo? Também os retirantes, comitivas de boiadeiros, quiçá, ponto de referência à distância para os obreiros da estrada de Ferro Noroeste do Brasil, soldados da coluna revolucionária, pelos grotões do Campo Japonês, sob o comando de Juarez Távora, vindos pelo Porto Independência rumo à Campo Grande e que aqui mais de cem deles capitularam, por ventura, não teriam eles descansado à sua sombra?

E lá, ao longe, mirando lejo, estava o centenário Jatobá. Imponente, feito um posteiro, um sentinela.

Num levantamento sócioambiental que realizei para a empresa Poyry em 2007, pude observar que os galhos e o caule do velho Jatobá não haviam resistido somente ao tempo e a intempérie. Também sofrera com a negligência e imperícia dos homens, técnicos despreparados e equipamentos inadequados para lidar com essa espécie de vida, vida delicada, vegetal, comumente desprezada.

Informei à época em relatório que o Jatobá fora vítima de lastimáveis podas, por demais radicais e que necessitava urgente de cuidados fitossanitários, o que colocava em risco sua preservação. Os ramos ainda muito verdes, nos seus extremos, sinalizavam anseio e esperança de uma sobrevida, que não encontrou amparo a tempo.

Hoje a sentença da doutora em agronomia da UFMS, Maria José Neto revela que estávamos moucos, e o quadro do paciente não oferecia outra escolha aos ecologistas e aos atuais administradores: botanicamente a arvore é considerada morta, encontrando-se em processo de apodrecimento (…). Inclusive com espaços que permite observar que o cerne está em processo avançado de decomposição. Palavras por demais  duras para quem embalou suave a brisa dos fins de tarde no corredor do último século.

Sobre os brotos e galhos ainda presentes na árvore, a professora explicou que se tratava de uma figueira (planta oportunista) que costumeiramente cresce sobre outras plantas utilizando-as como suporte. Aqueles ramos verdes já não eram do jatobá. O parecer ainda previu que como seu caule encontrava-se muito frágil, ela (a planta intrusa) tende a morrer em pouco tempo.

A notícia de que o velho Jatobá será transformado em um monumento, inobstante, semeia alento ao leitor. Restará ao artista da terra, o entalhador Wilson Narciso de Souza, a maestria de aproveitar o tronco e os galhos do velho Jatobá para a confecção de um monumento histórico, que lembre esta histórica e importante árvore para a cidade, declara o produtor cultural incumbido da nobre tarefa.

Enquanto as novas mudinhas plantadas pelo atual prefeito Ângelo Guerreiro (PSDB) no início de seu mandato em 2017, quatro anos após a derrubada do antigo Jatobá, caberá ao artesão e suas mágicas mãos, o milagre do renascimento da natureza morta, um salto para a cultura viva…

Oxalá, este monumento ressurgido, depois de concluído, seja preservado com mais zelo e ciência pelos administradores, para que a memória deste e inúmeros outros patrimônios históricos-culturais da cidade de Três Lagoas e região não sejam levados pelo vento… E nem se percam nas curvas de um trem fantasma que só vai, e nunca mais volta…

Carlos Alberto dos Santos Dutra – Popularmente conhecido como “Carlito” Professor – Teólogo – Escritor – Poeta, Médico Veterinário – Filósofo – Historiador – Advogado.

Mora em Brasilândia-MS é funcionário de carreira na Prefeitura Municipal. Tem diversos poemas e livros escritos, muitos deles históricos e que narra com fervura a vida e a luta do povo indígena Ofayé, presente em Brasilândia há milhares de anos. Censo dos anos 90 dizia que a nação possuia apenas 43 membros. O famoso escritor nordestino Gilberto Freire deu como raça extinta nos anos 70.

Ray Santos