Operação prendeu chefões; pistoleiros estão foragidos

Operação prendeu chefões; pistoleiros estão foragidos

30 de setembro de 2019 0 Por raysantos

José Moreira Freires, condenado em 2018 por matar delegado, não é visto desde abril

30 SET 19 – 10h:19 – EDUARDO MIRANDA – Correio do Estado

Jamil Name no momento de sua prisão, em sua casa em Campo Grande – Valdenir Rezende/Correio do Estado

Policiais do Grupo Armado de Repressão a Assaltos e Sequestros (Garras) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) puseram 19 suspeitos de integrarem um grupo de extermínio que teria atuado em pelo menos quatro assassinatos na prisão, sexta-feira (27), entre eles, os empresários Jamil Name e Jamil Name Filho, apontados como os chefões da quadrilha. Ocorre que as duas pessoas responsáveis por executar os crimes – o guarda municipal José Moreira Freires e o auxiliar Juanil Miranda Lima – continuam foragidas desde abril. 

Freires, condenado no ano passado por matar o delegado Paulo Magalhães em junho de 2013, participou, conforme acusa o Gaeco, do assassinato do estudante de Direito Matheus Xavier, em abril deste ano, mesmo usando tornozeleira eletrônica, instrumento que utilizava por determinação da Justiça, ao receber o benefício de recorrer em liberdade da condenação a 18 anos de prisão por ter executado o delegado.  

“No homicídio do estudante Mateus Coutinho Xavier (…), verificou-se a participação dos dois componentes deste núcleo, ora representados Juanil Miranda Lima e José Moreira Freires”, afirma o juiz da  7ª Vara Criminal Especial, Marcelo Ivo de Oliveira, no despacho que autorizou todos os mandados da operação desencadeada na sexta-feira. 

Integrantes da equipe que investiga a organização confirmaram que os dois estão foragidos desde abril, logo depois que um homem (cuja identidade não será revelada), contratado pela quadrilha para hackear a rastrear o verdadeiro alvo da dupla: o policial militar Paulo Roberto Xavier (pai da vítima), prestou depoimento à Polícia Civil no inquérito que investiga o assassinato do estudante. 

O Correio do Estado apurou no mês passado que o pagamento pelo crime seria de R$ 120 mil. 

Para comprovar o envolvimento de José Moreira Freires e Juanil Miranda Lima na execução do rapaz, os investigadores utilizaram os dados do rastreamento da tornozeleira eletrônica, fornecidos pela Agência de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), interceptação telefônica e depoimentos de pessoas muito próximas aos integrantes do grupo de extermínio. 

O trabalho de investigação ainda trouxe o envolvimento da dupla em outra execução: a do policial militar e ex-chefe de segurança da Assembleia Legislativa Ilson Martins de Figueiredo, em 11 de junho de 2018, em Campo Grande. As contas de Juanil no Google Drive armazenavam 26 fotografias da execução. Outro assassinato, o de Orlando da Silva Fernandes, o Bomba, ex-segurança de Jorge Rafaat, ocorrido em 28 de outubro do ano passado, também é investigado pela força-tarefa formada por Garras e Gaeco. Em outros depoimentos, uma outra execução, a de Marcel Costa Hernandes Colombo, o Playboy, também é creditada por testemunhas a este grupo de extermínio. 

ORGANIZADOS

Na investigação, os promotores do Gaeco e policiais do Garras elaboraram um mapa do grupo de extermínio, dividindo-o em vários núcleos. Os chefões, conforme consta nos autos, são Jamil Name e Jamil Name Filho.

Os gerentes da organização seriam os policiais civis Márcio Cavalcante da Silva e Vladenilson Daniel Olmedo, o guarda municipal Marcelo Rios (o primeiro a ser preso, em 19 de maio deste ano) e o funcionário de Name, Luís Fernando da Fonseca. 

Márcio Cavalcante da Silva, conforme revelam os promotores, foi flagrado durante seu expediente na casa da família Name e não utilizava intermediários para falar diretamente com os chefões. Vladenilson, por sua vez, ganhou ainda mais protagonismo no grupo depois da prisão de Marcelo Rios. 

Interceptação telefônica mostra áudios em que ele orientava outros integrantes do grupo (sobre tarefas e escalas) e participava ativamente do dia a dia da família Name. Ele ainda é apontado por trazer armas e munições do Paraguai e responsável por participar de ações voltadas à “pressão/coação/agressão de pessoas que, de alguma maneira, possam atingir a família Name”, indica o despacho do juiz da 7ª Vara Criminal.

Há ainda o grupo de apoio (veja o nome dos integrantes em gráfico nesta página). Muitos deles fazem trabalhos lícitos, como o de motorista, mas também teriam desempenhado ações ilícitas, como limpar o apartamento de Jamil Name Filho assim que o ex-guarda municipal Marcelo Rios foi preso ou coagir a esposa de Rios, Eliane Batalha, durante as investigações. Os executores, já citados no início deste texto, eram Juanil Miranda Lima e José Moreira Freires. 

“A maior matança da história do MS, de picolezero a governador”

A análise das conversas presentes nos telefones apreendidos durante a operação e a interceptação telefônica foram fundamentais para os policiais do Grupo Armado de Repressão a Assaltos e Sequestros (Garras) e os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) chegarem aos empresários Jamil Name e Jamil Name Filho, apontados como os chefões do grupo de extermínio e milícia armada. Em um dos diálogos entre Name Filho e um interlocutor (cujo nome será preservado), o empresário utilizou a seguinte frase: “Sai a maior matança da história do MS, de picolezeiro a governador (sic!)”. 

Jamil Name Filho, conforme o juiz Marcelo Ivo de Oliveira, da 7ª Vara Criminal Especial, destacou, com esta fala, que ele é o “chefe do grupo de extermínio criado para executar e eliminar inimigos e desafetos da família Name, seja por motivos de ordem profissional (negócios) ou mesmo pessoal, bem como ressalta que matarão da pessoa mais simples a mais importante dentro deste Estado da Federação”.

CÂMERA OCULTA

Parte desses arquivos eletrônicos estava na casa do Bairro Monte Líbano em que foram encontrados seis fuzis (dois AK-47) e dezenas de pistolas, revólveres e espingardas, além de milhares de munições, em 19 de maio, com Marcelo Rios, ocasião em que ele foi preso em flagrante.  

No local, havia ainda dois bonés com câmeras ocultas. Ao recuperarem os áudios e as imagens gravados pelos bonés, os policiais não só ouviram menções a Jamil Name, como também viram que ele aparecia em algumas imagens conversando com outros indivíduos do grupo.