Coluna – As histórias da décima temporada da LBF

7 de março de 2020 0 Por raysantos
Maria Luisa da Silva disputará LBF.
© Diego Maranhão/LBF/Direitos Reservados

Liga de Basquete Feminino começa domingo com oito equipes na disputa

Publicado em 06/03/2020 – 21:37 Por Igor Santos – Repórter da TV Brasil. A coluna do jornalista será publicada pela Agência Brasil semanalmente às sextas-feiras. – Rio de Janeiro

No próximo domingo (8), Dia Internacional da Mulher, começa a décima temporada da Liga de Basquete Feminino (LBF), com o duelo entre Ituano Basquete e Santo André/Apaba. Além destas duas, outras seis equipes iniciam a edição simbólica traçando trajetórias distintas, mas com objetivos similares e a mesma representatividade: personagens de um campeonato que, inegavelmente, avançou ao longo de dez anos, mas que é parte de uma engrenagem que ainda necessita de ajustes.

Em outros tempos, até mesmo o calendário era fonte de preocupação. Encontrar as brechas para viabilizar um campeonato em um período que não coincidisse com o das ligas europeias era um desafio. Isso foi solucionado. Pelo segundo ano consecutivo, a LBF inicia no emblemático 8 de março e acaba, no mais tardar, junto com o mês de agosto. Assim, não há conflito com a temporada europeia, que costuma ir no máximo até abril. Além disso, pela terceira temporada seguida, assistir às partidas é relativamente fácil. Afinal, todas elas serão transmitidas pela web.

Quem estiver atento à partida de abertura vai testemunhar a jornada de uma das figuras com mais história no nosso basquete. Arilza Coraça, de 68 anos, é a técnica da equipe de Santo André. Em 2021, ela vai completar 50 anos vivendo na cidade do ABC paulista, de uma forma ou outra sempre conectada ao basquete, como jogadora, auxiliar técnica ou em funções administrativas. Durante 35 anos, ela foi parceira de Laís Elena, técnica falecida em 2019 que comandou o Santo André na conquista do título da primeira temporada da LBF, em 2010. O convite para comandar a equipe (pela segunda vez) veio pouco depois da morte da amiga e desde então ela tem aplicado em quadra tudo que aprendeu no convívio com a antiga companheira.

Arilza Coraça, de 68 anos, é a técnica da equipe de Santo André

Arilza Coraça (esquerda) é aúnica mulher a comandar uma equipe da LBF em 2020, o Santo André – Jorge Bevilacqua/LBF/Direitos Reservados

“A gente se completava. Ela sempre foi uma estrategista, gostava do ataque. O meu olhar sempre foi voltado para a defesa. Também aprendi com ela a ser uma pessoa melhor, uma profissional que trata a décima segunda jogadora da mesma forma que a primeira”, revela.

É com essa ótica que Arilza espera mais uma boa campanha do Santo André, que nunca mais voltou a ser campeão, mas criou o hábito de ocupar as primeiras posições. Ela é a única mulher que começa a temporada 2020 como técnica de uma das equipes da LBF.

“É preciso ter conhecimento de basquete. Nós, mulheres, podemos ocupar qualquer função, desde que nos preparemos”, opina.

Além da quadra, outro espaço pronto para ser tomado pelas mulheres são os corredores. Roseli Gustavo, parte da geração campeã mundial de 1994, é parte integral do projeto do Sesi-Araraquara. Aos 48 anos, onze depois de se aposentar, ela é coordenadora de Esporte e Lazer do município no interior de São Paulo e, por consequência, coordena também diversas funções administrativas dentro da equipe. É ela quem vê a documentação para transferências de jogadoras, planeja a logística de treinos e viagens, além de, ocasionalmente, servir como um porto seguro para atletas em busca de orientação. Assumir uma função que não ficasse restrita aos 28 x 15 metros da quadra é algo que até agrada Roseli.

“Hoje, percebo que me identifico muito com essa função. É tão importante quanto o trabalho dentro de quadra. Eu vivi tudo que elas estão vivendo. Viajei muito. Sei qual é a alimentação adequada, o local de treino mais indicado. Elas me procuram para conversar quando não estão rendendo. Eu chamo as atletas para tomar um café, se abrir. Ninguém melhor que uma mulher para entender outra mulher. E o fato de ter jogado me dá uma bagagem para falar sobre isso, consigo entender o que ela precisa”, afirma.

Roseli acredita que outras ex-atletas, inclusive da mesma geração que a dela, podem passar a desempenhar esse papel em outras equipes. Curiosamente, uma ex-colega de time faz exatamente isso na Confederação Brasileira de Basquete (CBB). Adriana Santos é a responsável por certificar que tudo esteja funcionando bem para as atletas. Ela também é endossada pelo próprio currículo. Hoje, no dia a dia das seleções brasileiras, ela se encontra assistindo aos jogos e não mais atuando. O bem do basquete de clubes pode se traduzir no bem da seleção.

Roseli Gustavo, parte da geração campeã mundial de 1994, parte integral do projeto do Sesi-Araraquara e coordenadora de Esporte e Lazer do município no interior de São Paulo

Roseli Gustavo foi parte da geração campeã mundial de 1994 – Ellen Costa/SESI Araraquara/Direitos Reservados

“Atuar numa liga forte só traz benefícios para os dois lados. Isso aumenta o nível da competição e, consequentemente, da seleção. Mas é difícil comparar com a minha época. Estamos falando de trinta anos atrás. Iniciei na antiga Taça Brasil, realizada numa sede determinada. Depois teve o Campeonato Nacional de Basquete, organizado pela CBB, com várias atletas fortes daqui e de outros países também. As partidas eram muito disputadas e os ginásios estavam sempre lotados”, relembra.

Adriana deixou as quadras justamente quando a LBF nasceu, em 2010. Mas fez parte (como assistente e coordenadora) daquele que é, até agora, o projeto mais vencedor da curta história da liga: o de Americana, dono de quatro títulos. Pouco depois do último deles, em 2017, a equipe chegou ao fim. Mas ressurgiu em outro corpo, o do Vera Cruz, de Campinas, que veio do esforço de figuras chave do projeto anterior. Uma delas foi Karla Costa, que passou a cumprir jornada dupla, como jogadora e presidente do clube. Aos 41 anos, ela faz parte do seleto grupo de atletas que estiveram em quadra em todas as edições da LBF. Nenhuma delas com a carga de trabalho que ela tem, obviamente.

“É bem puxado. Acabo fazendo bastante coisa. Esse ano, tenho me dedicado muito mais fora do que dentro de quadra, porque tento estruturar a equipe da forma que gosto como jogadora, e isso é exaustivo. Mas sempre consigo tempo para continuar treinando com as meninas. Só que vou estar ali mais para ajudar do que para ser decisiva”, admite.

Arilza, Roseli, Adriana, Karla, todas elas viram o basquete e as competições de basquete feminino passarem por diversas fases no Brasil. Todas têm a mesma preocupação: o que virá pela frente. Com 12 mil reais é possível franquear uma equipe. Mas esse é apenas um pequeno passo para que de fato se abra mais uma janela de oportunidades. Nesta edição, por exemplo, dez projetos se mostraram interessados em participar da LBF, mas apenas oito estão na disputa, porque as propostas de Mogi e Salvador não tinham o suporte necessário para se sustentarem. Considerando isso, não há ilusão dentro da cúpula da LBF de que seria possível fazer um bom campeonato com mais do que doze equipes.

Karla Costa, jogadora e presidente do Vera Cruz, de Campinas.

Karla Costa, jogadora e presidente do Vera Cruz, de Campinas – Álvaro Jr/LBF/Direitos Reservados

Isso acontece porque, para formar times, é preciso ter jogadoras, e, para isso, é necessária uma estrutura de basquete de base. É a mesma tecla batida por todas as entrevistadas.

“Acredito que precisamos resetar muitas coisas, mentalidades, e seguir exemplos das grandes equipes, dos que estão no topo. Fazer por fazer sempre nos trará resultados intermediários. Precisamos entrar com o basquete nas escolas, fazer a base forte, criar ídolos, ou passaremos mais dez anos errando a mesma coisa”, diz Karla.

“Sabemos que a situação do país é complicada e que para fazer algo necessitamos de verbas, não está fácil para ninguém. Precisamos focar nas categorias de base, porque, caso não façamos isso, em pouco tempo não teremos atletas para jogarem a LBF”, diz Adriana.

Através de iniciativas, a LBF atua em parceria com projetos sociais e escolas das cidades que possuem equipes jogando a competição. Mas talvez não haja nada mais simbólico do que a própria participação da equipe da Liga Sport Basketball (LSB), do Rio de Janeiro. O time chega para o segundo ano na liga adicionando mais um capítulo a uma história majoritariamente escrita dentro do basquete amador do Rio de Janeiro. Muitas das atletas, mesmo não sendo mais tão jovens, nunca haviam atuado profissionalmente antes da temporada passada. A ala-armadora Maria Luisa da Silva, de 24 anos, é uma delas.

“Tem sido uma oportunidade enorme. Muitas aqui já tinham parado de jogar, outras estudam ou trabalham. Estamos abrindo chances para que as meninas mais novas nos vejam, gostem do esporte e tentem continuar. Tenho outros planos. Faço faculdade de Educação Física e me formo esse ano. Mas, enquanto vou tendo essas oportunidades aqui, vou aproveitando”, diz.

Ao fim, uma coisa fica clara. Cada uma delas tem a sua história. Cada uma delas tem uma expectativa para a temporada. Mas a intenção é uniforme. Possibilitar que o basquete seja um destino viável para as mulheres que ainda estão para chegar nesse mundo.

Edição: Fábio Lisboa