

Nove mil. Este é o número preliminar de mortes causadas pela onda de calor que atingiu a Europa em junho.
Preliminar porque os países do continente ainda contabilizam seus mortos e porque o diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, Hans Kluge, fez nesta semana um novo alerta: “semanas mais mortais” ainda estão por vir.
Nove mil é também o número aproximado de assentos na ala VIP do MetLife Stadium, onde Gianni Infantino, presidente da FIFA, deve acompanhar a final da Copa do Mundo, em 19 de julho.
Até lá, terá percorrido milhares de quilômetros em um jatinho particular para assistir a 45 partidas do torneio, deixando uma pegada estimada de 967,5 toneladas de carbono equivalente — volume que um ser humano levaria 147 anos para emitir.
Em outras palavras, seriam necessárias várias gerações para provocar o mesmo impacto climático que um único homem terá causado em apenas um mês e meio.
O OC fez a conta, a partir de dados levantados pela BBC. Enquanto a Copa entretém milhões de espectadores, o planeta continua esquentando. A previsão é que a combinação entre El Niño e mudanças climáticas faça de 2027 o ano mais quente da história, com consequências ainda desconhecidas, mas certamente duradouras.
Um exemplo veio nesta semana: o IBGE revelou que dois em cada três atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, ainda hoje relatam piora na saúde mental, neste que é mais um estudo que revela as conexões nefastas entre mudanças climáticas e bem-estar humano.
Já o Brasil não decepcionou somente na Copa, ao ser desclassificado nas oitavas de final. Um relatório mostrou que o país ajudou a levar as Américas ao posto de região que mais produz petróleo no mundo, desbancando o Oriente Médio.
A frustração também se estende ao Congresso Nacional, que não tem poupado esforços para desmontar a legislação ambiental, colocando em risco os avanços no controle do desmatamento.
Ainda não sabemos quem vai ganhar a Copa do Mundo de 2026. Já é certo, porém, que até o campeonato acabar, o El Niño terá se intensificado e o mundo deverá estar mais quente, matando pessoas, esquentando oceanos, derretendo geleiras e potencializando eventos climáticos, como o supertufão Bavi, que, no momento que você lê esta newsletter, já deve ter atingido a costa Leste da China. Boa Leitura!
Presidente da FIFA joga sujo com clima na Copa 2026
Especial OC na Copa mostra que conexões entre futebol e clima vão muito além da parada para hidratação
Há poucos anos, a Fifa declarou que as mudanças climáticas exigem de todos ações imediatas e sustentáveis.
Ela só deixou de falar que não está incluída neste “todos”.
Somente na fase de grupos da Copa 2026, seu atual presidente, Gianni Infantino, percorreu 50 mil quilômetros entre México, Canadá e Estados Unidos, em um jatinho particular.
Caso venha a acompanhar todos os jogos que faltam até o final do torneio, os deslocamentos entre os estádios devem resultar no lançamento de 967,5 toneladas de carbono equivalente na atmosfera, valor muito maior do que um ser humano médio emitiria em toda sua vida.
Some isso às cerca de 9 milhões de toneladas de CO2e que o torneio deve deixar de pegada de carbono – mais do que o dobro da média de emissão das últimas quatro competições – e a meta de ser “carbono zero até 2040” anunciada pela Federação vira mais uma piada de mau gosto, entre as muitas desta edição do evento.
Faça o que eu falo, não faça o que eu faço. Entre as equipes, também há aquelas que só estão dando bola fora, como o Canadá, quarto maior produtor de petróleo do mundo que decepcionou não só em campo, quando perdeu de 3 a 0 pro Marrocos, mas também nas arenas da negociação climática internacional.
A nossa comentarista climático-esportiva Stela Herschmann aproveitou o jogo para comparar as NDCs dos dois países, mostrando como o Canadá tem jogado na retranca (é o único país do G7 que não reduziu suas emissões abaixo dos níveis de 1990) enquanto Marrocos aposta num phaseout incondiconal do uso de carvão até 2040. Já o Brasil, segue falhando em suas estratégias dentro e fora de campo.
A dupla de ataque formada por Isis Diniz e Anton Schwyter, do Iema, contou como o Leilão de Reserva de Capacidade, realizado em março, contratou 16,8 GW de energia gerada por usinas termelétricas movidas a gás natural, carvão e óleo combustível. É jogo sujo. Literalmente.
Foto: Gianni Infantino no Kansas City Stadium para o jogo entre Argentina e Argélia, no dia 16 de junho de 2026. Crédito: Charlotte Wilson / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
Américas ultrapassam o Oriente Médio na produção de petróleo
Novo epicentro fóssil
O mapa da produção petrolífera mundial está mudando. Impulsionadas por Estados Unidos, Brasil, Canadá e Guiana, as Américas já produzem 20% mais petróleo cru do que o Oriente Médio, segundo a última edição do relatório Statistical Review of World Energy, publicado na última semana.
Os números são relativos a 2025, quando o mundo ainda não vivenciava as consequências dos conflitos no Oriente Médio e do fechamento do Estreito de Hormuz.
Isto é, a participação das Américas na oferta global de petróleo vai ser ainda maior na próxima edição do documento. O papel da América Latina é duplo: enquanto abastece o mundo com fósseis, avança em renováveis.
Aviso reiterado
El Niño pode fazer de 2027 o ano mais quente da história
Embora algumas regiões do planeta – como parte da Europa e dos Estados Unidos – já enfrentem fortes ondas de calor, a média global de temperatura não bateu recordes em nenhum mês do primeiro semestre de 2026.
Esse cenário, porém, pode mudar. A probabilidade de o planeta enfrentar um El Niño “muito forte” já é de 81%, segundo nova projeção divulgada esta semana pela NOAA.
Somado ao aquecimento global causado pelas atividades humanas, o fenômeno deve elevar as temperaturas globais no fim de 2026 e ao longo de 2027.
Assim, o próximo ano pode tirar o posto de 2024, o mais quente até o momento.
Vida marinha em risco
Temperatura dos oceanos bate novo recorde
A temperatura média da superfície do mar está cada vez mais alta. Em junho, o serviço climático europeu Copernicus já havia registrado recorde, com média de 20,85ºC.
Nos primeiros dias de julho, o cenário se agravou, com temperaturas chegando a 21,02ºC, de acordo com medições da Universidade do Maine.
A cifra ultrapassa a registrada em 2024, o ano mais quente da história (até o momento), para o mesmo período.
Tal aquecimento mantém os corais sob pressão: nesta semana, 58% das 219 estações monitoradas pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA
) registravam algum nível de estresse térmico, e 14% já estavam em alerta de branqueamento nos níveis 1 e 2. No início do mês, os dados eram 55% e 13%, respectivamente.
Impactos prolongados
Afetados pelas enchentes de 2024 no RS relatam piora na saúde mental
Pesquisa inédita do IBGE mostra que 67,5% das vítimas das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 afirmam que a saúde mental foi afetada após a tragédia.
A população de baixa renda foi a mais atingida, e a percepção de piora na qualidade de vida também foi mais frequente entre as famílias mais pobres.
Metade dos entrevistados que disseram viver pior após as enchentes tinha rendimento mensal de até R$ 3 mil.
Entre os principais problemas apontados estão o acesso aos serviços de saúde, o abastecimento de água, a drenagem das águas da chuva, o esgotamento sanitário e o transporte coletivo.
Derretimento acelerado
Indonésia pode perder sua última geleira ainda em 2026
O aquecimento das águas do Pacífico está acabando com as geleiras dos países tropicais. A última geleira remanescente da Indonésia encolhe em ritmo tão acelerado que pode desaparecer até o fim de 2026 ou no início de 2027, segundo relatório da OMM desta semana.
Em 2025, a cobertura de gelo em Puncak Jaya, na ilha de Papua, equivalia a apenas 2% da área registrada em 1988.
Em 2025, a região teve o segundo ano mais quente, com temperaturas até 0,37°C acima da média de 1991-2020.
Quando comparada ao período entre 1961 e 1990, a temperatura atual está 0,75ºC acima da média.
Eles têm pressa
Câmara acelera mais um projeto que prejudica política ambiental
Lucio Mosquini voltou. O deputado – autor do projeto de lei que dificulta o uso de imagens de satélite para aplicar multas a criminosos ambientais, aprovado em maio na Câmara – agora conseguiu emplacar a tramitação a jato para outra proposta sua, desta vez alterando a Lei de Crimes Ambientais, de forma a flexibilizar a fiscalização.
No início do mês, a Câmara aprovou o regime de urgência para esta proposta, o PL nº 2.898/2025, dispensando sua tramitação pelas comissões.
Uma nota técnica feita pelo Observatório do Clima explica tudo.
Racismo ambiental em pauta
Nota técnica reúne recomendações ao Congresso sobre tema
O Observatório do Clima lançou a nota técnica “Racismo ambiental nas periferias urbanas brasileiras: evidências, riscos legislativos e recomendações ao Congresso Nacional”.
O documento reúne dados sobre a desigualdade na exposição aos impactos climáticos e apresenta recomendações para subsidiar deputados e senadores na formulação de políticas públicas e na análise de projetos de lei perigosos para a sociedade, como a fragilização do licenciamento ambiental.
Acesse a nota técnica aqui.
Na playlist
“Don´t Look Up”, música instrumental tema do filme homônimo lançado no início de 2022 e que ficou marcado por satirizar o negacionismo climático, a inação política e a influência dos interesses econômicos na manutenção do status quo. Para ouvir na final da Copa.
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