Tarifaço de Trump, guerra e eleição colocam investidores em alerta

Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos: Foto arquivo

Os mercados iniciam esta quinta-feira diante de uma combinação particularmente indigesta de guerra, protecionismo e desaceleração econômica.

As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em queda, com o Kospi recuando 6,37%, o Nikkei perdendo 2,79% e Xangai caindo 1,85%, enquanto os mercados europeus e os futuros de tecnologia nos Estados Unidos também operavam pressionados.

O dólar global permaneceu próximo de 100,5 pontos no DXY, o ouro recuou e o petróleo devolveu parte das altas recentes, embora o Brent continuasse orbitando os US$ 85 por barril.

O mercado sabe precificar inflação, guerra e recessão; o que ainda não conseguiu foi criar um derivativo contra governos que confundem diplomacia com palanque.

A escalada militar entre Estados Unidos e Irã continua impedindo uma retomada consistente do apetite ao risco. Washington intensificou os ataques contra alvos iranianos, inclusive em Teerã, enquanto o Irã respondeu com drones e mísseis e manteve sob ameaça a navegação no Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio mundial de energia.

O Brent recuava aproximadamente 0,5%, para perto de US$ 84,50, depois de três sessões consecutivas de valorização, mas o movimento representa realização técnica, não pacificação geopolítica.

Quando duas potências discutem com mísseis sobre a principal rota mundial de petróleo, a queda diária da commodity é só o silêncio entre duas explosões.

Nos Estados Unidos, a inflação ao produtor abaixo das expectativas reforçou a leitura mais favorável deixada anteriormente pelo CPI e reduziu a pressão imediata sobre o Federal Reserve.

A precificação de aperto monetário até o final do ano caiu de aproximadamente 43 para 27 pontos-base, enquanto a probabilidade atribuída pelo mercado a uma elevação de juros na reunião de julho recuou para perto de 10%.

Os rendimentos dos Treasuries cederam na sessão anterior, favorecendo o S&P 500 e o Nasdaq, mas o alívio não significa que a inflação esteja definitivamente controlada. Wall Street tem o curioso hábito de declarar extinto o incêndio assim que alguém encontra o extintor.

A agenda americana desta quinta-feira concentra vendas no varejo, pedidos semanais de auxílio-desemprego, indicadores do mercado imobiliário e discursos de dirigentes do Fed, além de um pronunciamento de Donald Trump previsto para as 22h, no horário de Brasília.

O desempenho do consumo será decisivo para avaliar se a economia americana continua suficientemente forte para tolerar juros elevados ou se a política monetária começará a cobrar um preço mais visível sobre emprego e atividade.

Netflix, UnitedHealth, GE Aerospace e Alcoa também divulgam resultados, ampliando o teste sobre valuations já exigentes. Em bolsa, não basta entregar lucro; é preciso entregar o milagre que o preço anunciou antes mesmo de Deus aprovar o orçamento.

A TSMC ofereceu o exemplo perfeito dessa exigência. A fabricante reportou crescimento anual de 77% no lucro, receita recorde e perspectiva favorável para o terceiro trimestre, sustentada pela procura por semicondutores avançados destinados à inteligência artificial.

Mesmo assim, suas ações chegaram a reagir negativamente, enquanto empresas como Nvidia, AMD, Micron e Broadcom permaneciam pressionadas.

A explicação não está no resultado, mas na expectativa acumulada em torno do setor: quando o futuro já foi inteiramente comprado, até o extraordinário parece uma decepção administrativa. A inteligência artificial continua produzindo chips; o mercado continua produzindo delírios com múltiplos.

No Brasil, o principal acontecimento é a confirmação, pelo governo americano, de uma tarifa adicional de 25% sobre uma parcela dos produtos brasileiros, com entrada em vigor marcada para 22 de julho.

A lista de exceções preservou itens importantes como café, carne bovina, laranja, suco de laranja, determinados produtos energéticos e componentes aeroespaciais, reduzindo o impacto direto sobre o PIB e sobre parte expressiva da pauta exportadora.

Segmentos como roupas, calçados, etanol e determinados produtos industriais, contudo, poderão enfrentar perda de competitividade, compressão de margens e necessidade de redirecionamento da produção.

O tarifaço veio com exceções suficientes para limitar o dano econômico, mas não com diplomacia suficiente para impedir que Brasília transformasse uma negociação comercial em concurso público de culpados.

A Casa Branca atribuiu a medida ao que considera práticas comerciais injustas e falta de disposição do governo Lula para negociar de boa-fé. Flávio Bolsonaro havia solicitado a Washington que a aplicação das tarifas fosse adiada até depois das eleições brasileiras de outubro, mas o pedido não impediu a confirmação da cobrança.

Na prática, a decisão americana fecha a janela de uma solução imediata e empurra uma eventual recomposição comercial para um ambiente já contaminado pela campanha eleitoral.

Quando política externa vira material de comício, exportador deixa de vender produto e passa a financiar a vaidade de quem segura o microfone.

O ambiente eleitoral confirma que a disputa permanece aberta. A pesquisa PoderData/Aya mostra Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 43% em uma simulação de segundo turno, configurando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

No primeiro turno, Lula aparece com 40%, enquanto Flávio registra 35%, segundo os dados divulgados.

O levantamento ouviu 2.400 eleitores entre 12 e 15 de julho, em um momento no qual tarifas, economia e política externa passaram a influenciar diretamente a narrativa eleitoral.

A eleição continua sem vencedor definido, mas já tem um derrotado recorrente: o contribuinte, que paga pela campanha muito antes de votar.

Para os ativos brasileiros, o efeito macroeconômico direto da tarifa tende a ser limitado, mas o custo político, cambial e setorial permanece relevante.

O Ibovespa encerrou a sessão anterior aos 176.010 pontos, em queda de 0,36%, o dólar permaneceu próximo de R$ 5,07 e a curva de juros ganhou inclinação nos vencimentos mais longos, enquanto o fluxo estrangeiro acumula entrada superior a R$ 35 bilhões em 2026.

Análise de Mercado

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