Na Newsletter: Petróleo na Foz do Amazonas e a escolha consciente pela crise climática

Daqui a dois meses, quando o El Niño mais forte em pelo menos um século espalhar morte e destruição pelo Brasil, quem não estiver ocupado demais apagando incêndio ou fugindo da enchente poderá se lembrar desta semana que acaba como um enorme episódio de dissonância cognitiva.

A elite política brasileira comemorou a descoberta de “indícios de hidrocarbonetos” no poço Morpho, que a Petrobras perfurou na bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá.

A festa foi tão grande que o presidente do Senado, o notório amapaense Davi Alcolumbre, resolveu selar a paz com o presidente Lula e prometeu tirar o traseiro de cima do PL da escala 6×1, de interesse do petista (e da civilização), travado na Câmara Alta como barganha política.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, bravateou que o Amapá será um produtor de petróleo “em uns seis ou sete anos”. Ao abrir uma nova fronteira de petróleo e gás e ao apostar que haverá mercado para essas commodities em sete anos, o Brasil está topando assinar um pacto de suicídio coletivo.

O mundo está a poucos anos de ultrapassar de forma permanente o limite de aquecimento global de 1,5ºC fixado pelo Acordo de Paris, e a devolução da temperatura global no fim deste século a patamares sobrevivíveis pela sociedade depende de acelerar o fim dos combustíveis fósseis – o exato oposto do que vimos nesta semana no Amapá.

É cedo para dizer se existe óleo em quantidade e qualidade suficientes na Foz do Amazonas, mas, se óleo houver, decidir exportá-lo é mais do que uma “contradição”, como Lula apontou quase jocosamente. É uma escolha consciente pela crise climática.

É difícil condenar Lula quando se olha para o comportamento de outros líderes mundiais, da Guiana ao Canadá, da Nigéria à Noruega.

E isso para não dizer nada do maior expansor de óleo e gás do mundo, os EUA, que perfuram como se não houvesse amanhã (e, neste ritmo, não haverá mesmo). 

A aceleração dos eventos extremos nos últimos anos parece esta produzindo o efeito oposto do que se esperaria: em vez de meter o pé no freio, os países produtores estão acelerando a exploração, cada um deles esperando ser o vendedor do último barril enquanto a deterioração do clima não acaba com esse baile da Ilha Fiscal planetário.

O problema é de timing: os petroleiros acham que têm uma década ou mais para encher a burra de dinheiro à custa da ultrapassagem do 1,5ºC. O El Niño deste ano está aí para mostrar que esse otimismo provavelmente foi exagerado. 

Poupe água e boa leitura. 

Petrobras confirma presença de petróleo na Foz do Amazonas

Empresa celebra descoberta de petróleo enquanto tenta descobrir o que, de fato, encontrou

Com muita pompa e nenhuma certeza, a Petrobras confirmou, na segunda-feira (17), o prenúncio feito na semana anterior sobre a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas.

O fato de que a petroleira ainda não sabe qual o volume existente no reservatório, qual a qualidade do óleo e nem se a quantidade é economicamente viável para a produção foi tratado como mero detalhe, numa manobra que o ditado popular conhece como “dourar a pílula”.

Na coletiva de imprensa orquestrada para a ocasião, o presidente Lula classificou a descoberta como um “passaporte para o futuro”.

Só esqueceu de dizer que é para um futuro mais quente e perigoso, com chuvas torrenciais, deslizamentos, secas e furacões, no qual as pessoas morrem e as economias são destruídas.

Para Lula, o petróleo na Bacia da Foz do Amazonas também significa “soberania nacional”. “Um país que tem um petróleo desta qualidade não vai permitir que ninguém meta o dedo nele”, disse o presidente.

Cerca de 48 horas depois já tinha gente querendo meter (o dedo e as garras). Reportagem da CNN mostrou que na quarta-feira (19) a chinesa CNOOC Petroleum Brasil pediu ao Ibama acesso à documentação relativa ao poço exploratório Morpho, no bloco FZA-M-59, onde a Petrobrás disse ter encontrado “a presença de hidrocarbonetos”.

Os argumentos contrários à abertura de uma nova frente de exploração de petróleo na Foz do Amazonas são vastos.

Além da incoerência com a realidade da crise climática, há também os profundos impactos ambientais e sociais associados.

Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, falou sobre essas e outras questões relacionadas aos planos da Petrobras para a região em entrevista ao podcast Café da Manhã, da Folha.

“Petróleo não é solução para nenhum país do mundo na situação que nós vivemos hoje”, disse ela.

Foto: Visita à sonda NS-42 que realiza a perfuração do poço Morpho, na Margem Equatorial. Crédito: Ricardo Stuckert

O voto de hoje define o clima de amanhã

O Observatório do Clima lançou, nesta semana, a campanha “Votar errado é um desastre”, que chama atenção para a relação cada vez mais explícita entre o voto e a capacidade de o Brasil reagir às mudanças do clima.

O compromisso de um candidato com o combate às mudanças climáticas e com a adaptação a seus efeitos importa tanto quanto seu compromisso com a saúde, a educação e a segurança pública — afinal, são esses temas que vão ditar a qualidade do nosso futuro.

A campanha complementa o documento da rede do OC para as Eleições 2026, que tem um papel duplo: ajudar os candidatos a estruturar suas campanhas e auxiliar os eleitores a cobrar seus candidatos.

Uma série especial de reportagens detalha os 14 temas abordados no documento. Gestão de Risco de Desastres e Economia da Sociobiodiversidade estão entre elas.

Eleições I

Eleições II

Quem defende a floresta no Congresso?

A Sumaúma começa esta semana uma série de debates com candidatos à Câmara dos Deputados e ao Senado. A cientista do clima Luciana Gatti e a liderança indígena amazônica Vanda Witoto abrem as conversas, que serão semanais, a partir do dia 26.

Cadê o phase out?

Capacidade global de mineração de carvão cresceu 11% em 2025

Um relatório publicado pelo Global Energy Monitor (GEM) mostrou que 834 novos projetos podem aumentar em 2,5 bilhões de toneladas a exploração anual de carvão no mundo.

Cerca de 31% do total já está em construção ou em operação de teste. Se toda a capacidade proposta for concretizada, nosso planeta receberá anualmente cerca de 17 milhões de toneladas de metano a mais.

Quem está sedenta por carvão é a Índia, que puxou o aumento de 2025.

O Ministério do Carvão indiano defende que uma maior produção é necessária para atender ao crescimento econômico, reforçar a segurança energética e responder à maior demanda por energia durante ondas de calor.

Alguém avisa o ministério que carvão esquenta ainda mais o planeta.

Não vou me adaptar

Mais de 80% dos municípios são vulneráveis a desastres geo-hidrológicos

Um levantamento inédito do OC mostrou que cerca de 4.500 municípios no país têm vulnerabilidade média, alta ou muito alta a inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos.

Quando entra em jogo o risco desses eventos causarem danos, mais da metade das cidades do país estão nas zonas de perigo. 

Salvador lidera entre as capitais na soma desses riscos, seguida de Belém, Manaus e Macapá.

E o cenário tende a piorar, com projeções de aumento dos riscos nas próximas décadas.

Ou seja, é preciso investir em adaptação bem antes de a água subir ou a terra cair.

Segue o líder?

China sinaliza que poderá sediar COP33

A China deu indicações de que “está debatendo o mérito de uma potencial oferta” de sediar a COP33, daqui a dois anos. 

A conferência da ONU de 2028, pra quem ainda acredita em ONU, será a mais importante desde 2023: é quando se espera finalizar o segundo Balanço Global do Acordo de Paris.

O movimento chinês é aguardado no mundo inteiro com ansiedade, já que sediar a COP significa que Pequim finalmente está pronta para assumir o óbvio papel de liderança que tem contra a crise do clima – mas que a superpotência vem hesitando em desempenhar, escondida atrás da máscara vagabunda de “país em desenvolvimento”.

A Bloomberg lembra que a Índia anunciou em abril a desistência de sua oferta de ser sede da COP.

Rápido e eficaz

OC propõe 37 soluções para reduzir emissão de metano do Brasil

Há pouco mais de um mês, a ONU fez um chamado aos países para que se empenhem em reduzir suas emissões de metano, uma das oportunidades mais rápidas, baratas e eficazes para desacelerar o aquecimento global a curto prazo.

O Brasil tem muito a fazer: as emissões brasileiras do gás estão entre as maiores do planeta – só em 2024 foram 21 milhões de toneladas lançadas na atmosfera pelo país – e com tendência de crescimento.

O caminho para esta redução foi dado pelo SEEG, o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, que lançou esta semana um caderno com soluções concretas para fazer cortes no metano nos principais setores poluidores.

O metano (CH4) é 28 vezes mais potente que o CO2 num período de 100 anos e responde por quase um terço do aquecimento global até o momento. 

Boy lixo

Probabilidade de mega-El Niño é de 95% no fim do ano, diz Noaa

A Noaa, a agência de oceanos e atmosfera que por algum milagre segue funcionando nos Estados Unidos, elevou para 95% a probabilidade de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro.

Na classificação da agência, temperaturas de superfície do Pacífico acima de 2ºC acima da média histórica caracterizam um Niño muito forte.

Em 2015/2016, quando um quarto dos corais da Austrália morreu, a máxima foi de 2,6ºC. O Met Office britânico está prevendo para último trimestre temperaturas de 3ºC, o que torna o evento deste ano “sem precedentes”, possivelmente o mais forte da história.

Os primeiros sinais já dão as caras no Brasil. Já são mais de 84 mil atingidos pelas chuvas no Rio Grande do Sul na última semana de julho, e a região Norte começa a sofrer com falta de precipitação.

O índice de temperatura do Pacífico, medido na costa peruana, chegou a 1,8ºC em agosto (lembrando que ainda é inverno no hemisfério Sul).

Esses dados e vários outros estão num raio-X semanal que o ClimaInfo começou a fazer para monitorar o fenômeno, que tende a ser a primeira megacatástrofe climática global prevista e acompanhada em tempo real.

A ONG está compilando dados de várias bases públicas em gráficos simples de entender.

O boletim deve estar disponível no site do ClimaInfo a partir da próxima semana.

Na playlist

Nesta semana, Israel conseguiu um milagre: depois que anunciou que suas Forças Armadas não investigariam um ataque a um comboio humanitário que matou sete pessoas em 2024, o governo delinquente ganhou cartas de repúdio de Canadá, Reino Unido e Austrália, países que sempre desconversam na hora de se posicionar sobre o genocídio em Gaza e o avanço acelerado da grilagem de terras palestinas na Cisjordânia.

Ficamos com o rapper bósnio Genocide e sua Free Palestine.

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