Por Fabíola Bueno (*)
Foto reprodução/CNN/Google
Vinte e cinco anos depois, os atentados de 11 de setembro de 2001 ainda influenciam a forma como pessoas atravessam fronteiras, trabalham em outros países e planejam uma mudança para o exterior. Controles biométricos, maior compartilhamento de informações e a aproximação entre política migratória e segurança nacional estão entre as transformações consolidadas desde então.
Nos Estados Unidos, a mudança começou pela própria estrutura do governo. O Department of Homeland Security foi criado após os ataques reunindo 22 órgãos e departamentos federais, enquanto a segurança dos aeroportos foi federalizada com a criação da Transportation Security Administration (TSA). Nos anos seguintes, novas regras reforçaram controles de fronteira e incorporaram identificadores biométricos aos vistos americanos.
A consequência foi uma mudança profunda na mobilidade internacional. Viajar ficou tecnologicamente mais simples, mas institucionalmente mais complexo. O estrangeiro passou a ser analisado dentro de uma estrutura mais ampla de avaliação de risco, e imigração, inteligência e segurança passaram a compartilhar cada vez mais informações.
Esse movimento não terminou nos primeiros anos após os atentados. Diferentes governos americanos adotaram políticas distintas de imigração nas últimas duas décadas, alternando períodos de maior abertura e endurecimento. O que permaneceu foi a centralidade do tema na política doméstica dos Estados Unidos. Em 2026, novas discussões envolvendo vistos temporários mostram como decisões de quem pretende estudar, trabalhar ou construir uma vida nos Estados Unidos continuam expostas a mudanças regulatórias e políticas.
Para as famílias, isso tornou o planejamento internacional mais complexo. A decisão deixou de envolver apenas a obtenção de um visto. Hoje, é preciso considerar quanto a permanência no país depende de um empregador, quais são as possibilidades profissionais do cônjuge, a situação dos filhos e os impactos financeiros e patrimoniais de uma mudança de longo prazo.
Essa transformação ajuda a explicar por que a previsibilidade passou a ocupar um espaço maior nas decisões de mobilidade global. Uma proposta de trabalho no exterior, a entrada de um filho em uma universidade americana ou a internacionalização de uma empresa podem desencadear decisões que envolvem carreira, patrimônio, residência fiscal e planejamento familiar ao mesmo tempo.
É nesse contexto que alternativas de residência permanente passaram a ser consideradas por algumas famílias. Nos Estados Unidos, o EB-5 faz parte desse universo ao permitir, mediante investimento elegível e cumprimento das exigências do programa, um caminho para a residência permanente. Isso não significa que o EB-5 substitua vistos profissionais ou seja adequado a qualquer investidor. O programa exige capital relevante e envolve riscos financeiros. A decisão precisa considerar a origem dos recursos, a qualidade do investimento, liquidez, prazo e impacto da alocação sobre o patrimônio familiar, além da análise migratória conduzida por profissionais especializados.
Essa separação tornou-se particularmente importante. Mobilidade internacional e investimento passaram a caminhar juntos em muitas decisões, mas são áreas diferentes. A escolha da estratégia migratória exige orientação jurídica; a escolha do investimento exige análise financeira, diligência e avaliação de risco.
Ao mesmo tempo, a internacionalização patrimonial tornou-se mais acessível. Nas últimas duas décadas, a digitalização dos mercados facilitou investimentos e movimentações financeiras internacionais, enquanto governos ampliaram controles de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e comprovação da origem dos recursos.
O resultado é um paradoxo: pessoas e capital conseguem atravessar fronteiras com mais facilidade, mas estão submetidos a controles muito maiores do que há 25 anos. Esse talvez seja um dos legados menos evidentes do 11 de Setembro. Para quem nasceu depois de 2001, fornecer biometria, ter informações verificadas antes de uma viagem ou acompanhar mudanças frequentes nas políticas de fronteira parece parte natural da mobilidade internacional. Para quem viveu aquele período, é possível identificar com mais clareza o momento em que essa transformação começou.
O que também mudou foi a forma de pensar o futuro. Para muitas famílias, a pergunta deixou de ser apenas como entrar em outro país e passou a ser como construir uma vida nele sem concentrar todas as decisões em uma única alternativa. Vinte e cinco anos depois, planejamento internacional significa buscar oportunidades, mas também preservar opções. Em um mundo no qual mudanças políticas, econômicas ou geopolíticas podem alterar rapidamente os planos de uma família, previsibilidade tornou-se parte importante da própria ideia de segurança.
* Fabíola Bueno é Managing Director da The Group Research, especializada em investimentos ligados à imigração para os Estados Unidos e uma das autoras do livro Protagonistas Volume 2
Ana Borges
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