Gecoc aponta repetição de retiradas abaixo de R$ 50 mil e suspeita que fracionamento dificultava rastrear o destino dos recursos pagos a empresas
14/09/2026
09:30 CGN DA REDAÇÃO – ©DIVULGAÇÃO
A investigação da Operação Antidotum identificou uma sequência de saques em dinheiro vivo, muitos deles no valor exato de R$ 49.999, realizados depois que recursos pagos pela Santa Casa de Campo Grande passaram por empresas e pessoas relacionadas ao núcleo investigado. Para o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), a repetição das quantias pode indicar uma estratégia para fragmentar as movimentações e dificultar o acompanhamento do dinheiro.
A análise foi possível após a quebra de sigilo bancário, que permitiu aos investigadores reconstruir parte do percurso dos valores depois dos pagamentos realizados pelo hospital. Uma das empresas no centro da apuração é a Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., contratada em 29 de outubro de 2024 para digitalizar documentos da instituição.
Segundo o MPMS, o contrato previa a digitalização de aproximadamente 3 milhões de páginas por mês, mas não teria sido comprovada a execução integral do volume contratado. O Conselho Fiscal da Santa Casa calculou diferença de aproximadamente R$ 511.390,10 entre os pagamentos efetuados e a produção cuja execução teria sido efetivamente demonstrada.
Dinheiro era retirado após pagamentos
O rastreamento bancário chamou a atenção dos investigadores especialmente para movimentações posteriores a pagamentos realizados pela Santa Casa nos dias 15 de maio e 25 de junho de 2025.
De acordo com o relatório, depois que os recursos eram creditados, começavam retiradas sucessivas em espécie, sem que os investigadores identificassem retenção compatível com despesas rotineiras da atividade empresarial, como pagamento de funcionários, aquisição de equipamentos ou manutenção da estrutura necessária para a digitalização.
O valor de R$ 49.999 aparece repetidamente nas operações analisadas.
“Em vez de uma operação única, compatível com uma obrigação empresarial comprovada, os investigados dividiram os valores em sucessivas retiradas, dificultando o rastreamento do destino do dinheiro”, afirma trecho da petição do Gecoc.
Milhões passaram por pessoas físicas
A investigação encontrou movimentações expressivas envolvendo pessoas físicas relacionadas ao fluxo financeiro das empresas.
A apenas uma delas são atribuídos aproximadamente R$ 2,197 milhões em saques e transferências. Um empregado da Exbe Tecnologia e Serviços Ltda. aparece relacionado a R$ 675.999, incluindo 13 saques com valores entre R$ 40 mil e R$ 49 mil.
Uma servidora pública estadual também aparece no rastreamento, com recebimentos que somam R$ 575.380. Outra pessoa teria recebido R$ 955.583 por intermédio da Redvalue e da Exbe e realizado 16 saques de R$ 49,9 mil.
Também estão no levantamento uma servidora municipal, com movimentações de R$ 211.989, e outro servidor público, relacionado a R$ 761.999, incluindo 14 saques de R$ 49 mil.
Três empresas são relacionadas pelo MP
Além da Redvalue, a investigação inclui Exbe e Infortech entre as empresas que, segundo o MPMS, estariam relacionadas ao empresário Maurício Aparecido Benites.
Para os investigadores, as três empresas funcionariam de maneira integrada, com recursos circulando entre elas antes de serem transferidos ou retirados por pessoas físicas.
“A REDVALUE foi utilizada como porta de entrada dos recursos pagos pela Santa Casa e como receptora de valores provenientes da EXBE e da INFORTECH. As três empresas funcionavam de forma integrada, com trânsito cruzado de recursos, pagamento recíproco de despesas, saques fracionados e utilização de pessoas físicas para retirada do numerário”, registra o relatório.
Juíza destacou padronização dos valores
A repetição das movimentações também foi considerada pela juíza May Melke Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, ao autorizar medidas da Operação Antidotum.
Na decisão, a magistrada destacou a recorrência das operações de R$ 49.999 e considerou que a coincidência sistemática do valor, imediatamente inferior ao patamar mencionado para comunicação obrigatória, poderia, em tese, indicar uma estratégia de fragmentação dos recursos e redução da eficácia dos mecanismos de controle financeiro.
A juíza também avaliou que o padrão identificado não seria compatível, em princípio, com pagamentos empresariais comuns e poderia dificultar a identificação dos beneficiários finais do dinheiro.
Seis investigados foram presos
A Justiça determinou as prisões de Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.
O Ministério Público também pediu a prisão do ex-vice-presidente da Santa Casa Jary de Carvalho Castro, mas a solicitação foi rejeitada. A magistrada determinou ainda o afastamento de Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva, além de autorizar mandados de busca e apreensão.
A Operação Antidotum apura suspeitas de peculato, falsidade ideológica, lavagem de capitais, fraude em contratações e organização criminosa. As conclusões apresentadas pelo Ministério Público ainda estão sujeitas ao contraditório, à manifestação das defesas e à análise da Justiça.
Jornal do Estado MS
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