
Wilson Aquino*
Chega o 11 de outubro e, com ele, o ritual de sempre: vitrines coloridas, anúncios de brinquedos, a data convertida em item do calendário do consumo. Nada contra os presentes, pois toda criança merece a alegria de desembrulhar o brinquedo dos sonhos. Mas o Dia das Crianças é, antes de tudo, ocasião para uma pergunta que não cabe em caixa e não se paga no cartão: o que as nossas crianças realmente precisam para se tornar adultos íntegros, felizes e preparados para a vida?
A resposta começa por uma verdade que a época insiste em relativizar: não existe empreitada mais séria para um ser humano do que colocar um filho no mundo. Não se trata apenas de gerar uma vida; trata-se de assumir, diante de Deus e da sociedade, a missão de formar um caráter, uma consciência, um cidadão. Quem gera não é dono da criança; é seu guardião e mordomo, responsável por apresentá-la ao bem e defendê-la do mal enquanto ela ainda não pode se defender sozinha. Ser pai, ser mãe, é a mais alta das vocações e, ao mesmo tempo, a mais exigente delas: exige presença, exemplo, diálogo, oração e vigilância permanente, nos bons e nos maus tempos, porque os frutos dessa criação serão colhidos por toda a família, e pela pátria, no futuro.
E exige ainda mais hoje. Se criar filhos sempre foi desafiador, a tarefa atual é travada em terreno minado. As ameaças já não ficam apenas do lado de fora do portão: entraram em casa pela tela do celular. Nas redes sociais e nos jogos on-line, predadores fingem ser adolescentes para se aproximar de vítimas; o aliciamento digital, o chamado grooming, transformou o quarto da criança em porta de entrada para o perigo. O assédio moral e o assédio sexual rondam meninos e meninas em ambientes que deveriam ser os mais seguros: a escola, o transporte coletivo, os corredores da internet. A inocência, que deveria ser o bem mais protegido de uma nação, virou alvo.
Há, porém, um front que muitos preferem não nomear: a própria sala de aula. A escola existe para ensinar matemática, português, ciências, história… e não para servir de palco a disputas ideológicas. Não falamos do professor dedicado, que se desdobra por seus alunos e merece o respeito de todos; falamos de quem usa a cátedra como púlpito, apresentando opinião como se fosse ciência e preferência política como se fosse verdade estabelecida. O pai que entrega o filho à escola pela manhã não abdica de ser o primeiro educador. A formação moral e espiritual dos filhos é direito e dever dos pais: não do Estado, não do movimento organizado, não da moda ideológica do momento.
E o problema não termina na educação básica. Chega à universidade transformado em regra: o jovem que deveria ser ensinado a pensar passa, com frequência, a ser ensinado a pensar de um determinado jeito, e a desconfiar dos valores que aprendeu em casa. Formar-se para a vida profissional não deveria custar a perda do próprio referencial.
Mais grave ainda é a insistência em levar a crianças cada vez menores, que mal aprenderam a multiplicar, conceitos sobre sexualidade e identidade de gênero que confundem, angustiam e desorientam a alma em formação. A infância é uma janela breve e irrepetível, em que se constrói a identidade. Substituir esse processo natural por experimentação ideológica é violência disfarçada de modernidade. Criança não é cobaia de ninguém. Quem quiser debater teorias que o faça na universidade, entre adultos; jamais na lousa, diante de uma criança de oito anos.
Diante desse cenário, os pais não podem baixar os braços: têm a obrigação de travar uma batalha redobrada para formar futuros bons cidadãos e cidadãs, honestos, honrados e trabalhadores, prontos para conquistar o seu espaço na sociedade pelo esforço próprio. É uma batalha que se vence menos com discursos e mais com presença: conversa constante, refeições em família, pergunta sobre o que se aprendeu na escola, atenção ao que se assiste, com quem se fala, em que se acredita. Participar da vida escolar dos filhos, ir às reuniões, conhecer os professores, ler o material, não é intromissão; é dever. O limite dado com amor, o “não” dito na hora certa, a vigilância serena: tudo isso é proteção, não autoritarismo. Filho vigiado não é filho preso; é filho cuidado.
E há um alicerce que nenhuma pedagogia moderna substitui: a fé. Segundo o Datafolha, 97% dos brasileiros declaram acreditar em Deus; a religiosidade segue sendo o alicerce do nosso povo. Os ensinamentos Cristãos no seio da família funcionam como escudo e bússola: escudo, porque dão à criança referências firmes contra as ondas do relativismo; bússola, porque apontam o caminho quando as encruzilhadas se multiplicam. Não que os filhos criados na fé fiquem imunes aos males; ficarão, sim, armados para enfrentá-los de cabeça erguida, certos de que nunca estarão sós na luta contra o mal, pois o Senhor estará com os seus.
A essa reflexão somam-se as autoridades. A Constituição Federal é clara: a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado (art. 226), e é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, com absoluta prioridade, o direito à vida, à educação, à dignidade e ao respeito, além de colocá-la a salvo de toda forma de negligência, violência e opressão (art. 227). Prioridade absoluta significa proteger a inocência, não expô-la.
E a Declaração Universal dos Direitos Humanos é ainda mais direta: os pais têm direito preferencial de escolher o gênero de educação que será ministrada a seus filhos. Proteger a criança não é pauta de direita nem de esquerda; é dever de todos. Que pais, escolas, governos e parlamentares tratem a infância como o que ela é: o capítulo mais precioso e mais frágil da história de um povo.
Neste Dia das Crianças, o melhor presente não vem embrulhado em papel colorido: vem no tempo dedicado, na conversa sincera, na oração em família, no limite dado com amor e no exemplo vivido de perto. Porque a promessa permanece de pé, para os pais e para as nações: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Provérbios 22:6).
*Jornalista, Professor e Escritor
Autor do Livro: Reflexões e Memória
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