Chegou a GRITA! em ação nº 68



“GRITA! em ação” é o informativo de notícias do Movimento de Cidadania GRITA! – Ano 4, nº 68 06/08/2026


A máquina de se perpetuar:por que 88% querem continuar e 68% nem sabem quem são  O 88% QUE NÃO SE CONHECE  

O Congresso Nacional aprovou R$ 30 bilhões em gastos sem custeio, entrou em recesso sem votar a LDO e agora descobre-se que 88% dos deputados tentarão a reeleição — recorde histórico.

O detalhe mais revelador não é esse. É que 68% dos eleitores não sabem sequer o nome de um deputado federal. Não sabem em quem votaram, não sabem quem os representa, e ainda assim 88% querem continuar representando quem não os reconhece.

Não é democracia — é um espetáculo sem plateia. Nesta edição, o GRITA! conecta dois diagnósticos que se explicam mutuamente: a máquina de perpetuação parlamentar e o espetáculo moral que substituiu a ética pela encenação.

Um filósofo alemão chamou isso de Moralspektakel.
O eleitor brasileiro chama de política. É hora de mudar o nome e mudar o jogo. Boa leitura.Equipe GRITA!



bomba fiscal

Um estudo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) revelou um dado que, sozinho, descreve o estado da representação política brasileira: 88% dos atuais deputados federais — 451 dos 513 — tentarão a reeleição em 2026.

É recorde.

E, a julgar pelas últimas eleições, a tendência é de uma das menores taxas de renovação parlamentar das últimas décadas.Não seria problema se estivéssemos diante de um Parlamento exemplar, que trabalhou intensamente em favor do País, aprovou reformas relevantes e colocou o interesse público acima das conveniências corporativas. Infelizmente, não é o caso.

Os últimos quatro anos foram marcados pelo fortalecimento do próprio Congresso — ampliação do poder sobre o Orçamento, expansão contínua das emendas parlamentares, sucessivos questionamentos sobre transparência e rastreabilidade, e um primeiro semestre de 2026 que terminou sem sequer aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias. É difícil enxergar nesse desempenho motivos que

justifiquem tamanha vontade de permanência.

Mas são justamente essas as razões que a explicam.
O estudo atribui a tendência ao endurecimento da legislação eleitoral e, sobretudo, às vantagens de quem já exerce o mandato: prioridade no acesso ao Fundo Eleitoral, estrutura de gabinete, assessores, maior exposição pública. Mas nenhum fator pesa mais do que as emendas parlamentares.

O Parlamento alterou as regras do jogo enquanto permanecia em campo. Ampliou seu controle sobre parcelas do Orçamento, fortaleceu os instrumentos de influência política dos atuais deputados e tornou a disputa eleitoral progressivamente mais desigual.

O mandato deixou de ser apenas uma função pública — tornou-se uma vantagem competitiva que ameaça a própria renovação da representação.

Há um dado que complementa esse quadro e é ainda mais perturbador. Uma pesquisa Datafolha mostrou que 68% dos brasileiros não conseguem citar o nome de um deputado federal sequer.

E 67% não se lembram em quem votaram para a Câmara na última eleição.

Ou seja: o deputado que se perpetua não é sequer reconhecido pelo eleitor que o reconduz.

É o Círculo Vicioso do Atraso em sua forma mais pura

— o eleitor não sabe em quem votou, o parlamentar não presta contas a quem não o conhece, e 88% tentam continuar exatamente onde estão, protegidos por uma máquina que eles mesmos ajudaram a construir.   Posto de Saúde
O presidente Lula prometeu, na campanha de 2022, rever o modelo das emendas parlamentares e chamou o orçamento secreto de “excrescência”.

Depois de eleito, nunca mais tocou no assunto e aprendeu a dançar conforme a música imposta pelo Parlamento.

Romper esse ciclo exige liderança política que nenhum presidente conseguirá exercer sozinho, porque as regras que favorecem a perpetuação são exatamente aquelas encarregadas de modificá-las — e quem as modificou foi o próprio Congresso.

É aqui que o Plano Estado-Nação do GRITA! apresenta o que a imprensa diagnostica, mas não propõe. O pilar “Sistema Político e Eleitoral” do PEN não se limita a apontar o problema — oferece o desenho da solução.

Suas diretrizes são claras: extinção do fundo partidário e das emendas de bancada e do relator, substituídas por financiamento de campanhas com recursos próprios dos partidos, sob regras claras e transparência.

Instituição de prévias abertas e transparentes para a escolha de candidatos, garantindo que as indicações sejam democráticas e não fruto de acordos entre caciques.

Adoção rigorosa da Ficha Limpa para todos os cargos eletivos e para a administração partidária. Instituição de um sistema de seleção de candidatos baseado em competências — não em popularidade, não em capacidade de puxar votos, mas em preparo para a função.

O PEN vai ainda mais longe.

Propõe voto distrital misto, para que o eleitor saiba exatamente em quem vota e possa cobrar do seu representante direto. Defende o fim do foro privilegiado, para que a regra valha igualmente para todos.

Propõe a extinção das votações monocráticas, para que toda decisão seja colegiada. E propõe um novo modelo eleitoral com assinatura digital de cada voto, contagem pública, certificação independente e auditoria externa — para que a urna não seja mais um mistério e o voto não seja mais uma esperança cega.

Democracias saudáveis dependem da possibilidade real de alternância no poder.

Quando o exercício do mandato passa a oferecer mecanismos que facilitam sua própria perpetuação, a competição deixa de ser entre candidatos e passa a ser entre quem dispõe da máquina do mandato e quem tenta enfrentá-la. A consequência é um Parlamento cada vez menos permeável à renovação e cada vez mais inclinado a preservar as regras que beneficiam seus próprios integrantes.

Bons representantes merecem ser reconduzidos — mas rever profundamente o modelo das emendas parlamentares é condição indispensável para restaurar uma competição equilibrada.

Até lá, caberá aos eleitores exercer um escrutínio ainda mais rigoroso sobre aqueles que pretendem permanecer no Congresso.

Afinal, quanto mais protegido estiver o ocupante do cargo, maior deveria ser o rigor do julgamento popular.

O voto consciente não é apenas um direito — é a única ferramenta que o cidadão possui para quebrar, pelo voto, a máquina que o Congresso construiu para se perpetuar.

Em 2026, a pergunta não é apenas em quem votar. É se o eleitor continuará a ser cúmplice de um sistema que ele não reconhece — ou se decidirá que 88% é um número demais.

Estrada para o futuro que não queremos    

O espetáculo moral e ademocracia que perdeu a balança

Microindecência cotidiana
Há um filósofo alemão contemporâneo chamado Philipp Hübl que dedicou os últimos anos a estudar um fenômeno aparentemente simples, mas que diz tudo sobre o estado das democracias modernas.

A sua pergunta é: por que as pessoas acreditam em bobagens? Não na mentira clássica, em que quem mente sabe que está mentindo, mas naquilo que o filósofo americano Harry Frankfurt chamou de “bullshit” — o discurso de quem simplesmente não se importa se o que diz é verdadeiro ou falso.

Para Hübl, a resposta nos leva de volta ao comportamento tribal: os seres humanos são criaturas sociais que tendem a valorizar mais o senso de pertencimento ao grupo do que a verdade.

Quem acredita nas representações falsas do seu grupo paga um preço social menor do que quem as contradiz.

Mas Hübl vai mais longe. No seu livro “Moralspektakel”, publicado em 2024, ele observa como a postura moral correta se tornou um símbolo de status.

“Queremos reconhecimento no grupo, e isso é algo profundamente enraizado em nós”, diz o filósofo. “Por isso queremos não apenas fazer a coisa certa, mas também que os outros reconheçam que a fizemos.

O desejo de pertencer, que nos torna tão suscetíveis ao “bullshit”, reaparece aqui numa forma nova: como sentimento de superioridade moral.

O resultado é que os debates sociais se tornam cada vez mais ideológicos e destrutivos — porque não servem para resolver problemas, mas para exibir virtude.

Política simbólica em lugar de soluções reais. Moral encenada em lugar de moral praticada.

Se o leitor reconhece nesse diagnóstico o retrato do Brasil, é porque reconhece. A nossa democracia é um palco permanente de Moralspektakel.

Parlamentares que votam no escuro se apresentam como defensores da transparência. Governantes que distribuem emendas sem rastreabilidade se declaram paladinos do interesse público.

Candidatos que nunca cumpriram uma promessa discursam sobre ética.

E o eleitor, mergulhado nesse espetáculo, aprende que a moral não é prática — é performance.

Que a postura correta não precisa ser acompanhada de ação correta. Que o importante não é fazer a coisa certa, mas ser visto

fazendo-a — ou dizendo que a faria.  

Vantagem para mim, regra para os outros

É aqui que Sofia — a sabedoria, a filosofia, o amor pelo conhecimento — entra em debate com a Política Moderna.

Sofia pergunta: como pode uma democracia funcionar quando a moral se tornou ornamento em vez de alicerce?

A resposta é que não pode. Nenhuma democracia sobrevive quando a ética vira figurino. E é precisamente por isso que o Plano Estado-Nação do GRITA! coloca a cultura política como ponto de partida, não de chegada.

O “Círculo Vicioso do Atraso” que o movimento diagnostica — maus candidatos geram maus parlamentos, que geram desinteresse, que gera maus candidatos — é o ciclo que Hübl descreve, mas na versão brasileira.

A diferença é que aqui o Moralspektakel não é apenas cultural: é institucional. Ele se materializa em PECs que blindam parlamentares, em fundos partidários financiados com dinheiro público, em emendas parlamentares sem rastreabilidade, em aposentadorias especiais sem custeio.

A solução que Hübl propõe — modéstia moral e um universalismo ético que se aplica igualmente a todos — é a mesma que o PEN sustenta.

O Plano Estado-Nação não pede que os políticos sejam santos; pede que a regra valha para todos, sempre, sem exceção. Não pede moralidade como espetáculo; pede ética como prática cotidiana.

A “Política Moderna” do GRITA! não é um show de virtude — é a recusa do espetáculo. É a exigência de que o parlamentar não apenas discurse sobre honestidade, mas que pratique a honestidade — começando por não votar no escuro, não viajar em jatinhos de banqueiros investigados, não aprovar gasto sem fonte de custeio.

Sofia fecha o debate com uma observação incômoda: a democracia não morre apenas por golpes militares.

Morre também quando a moral vira moeda de troca simbólica, quando o discurso ético substitui a conduta ética, quando o cidadão desiste de exigir coerência porque já se convenceu de que todos são iguais na hipocrisia. A modéstia moral que Hübl recomenda não é fraqueza — é a coragem de admitir que não somos melhores do que os outros e que, por isso mesmo, a regra precisa valer para todos.

Esse é o fundamento do Plano Estado-Nação. Esse é o debate entre Sofia e a Política Moderna. E esse é o voto que o eleitor brasileiro precisa dar em 2026: não no candidato que melhor encena a moral, mas no que melhor a pratica.  

Se votarmos conscientes, há esperança de mudança

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