El Niño, Copa do Mundo e Eleições

A bola já está em campo nos estádios da Copa do Mundo de 2026, com um jogador extra nas partidas: o calor.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) confirmou esta semana a chegada do El Niño, que desta vez vem com o superlativo “muito forte” e trará consequências ainda imprevisíveis, mas igualmente superlativas.

A maioria dos estádios da Copa não está adaptada ao calor, assim como não estão quase 4 mil municípios brasileiros, como mostrou uma reportagem da Folha: duas de cada três cidades do Brasil possuem baixa ou baixíssima capacidade de se adaptar a eventos extremos.

Quem vivenciou as enchentes no Rio Grande do Sul ou as secas intensas no Amazonas em 2024 entende o tamanho da tragédia que se avizinha.

Não foi por falta de aviso. Há meses cientistas, a ONU e organizações da sociedade civil ao redor do globo alertam para a chegada do Super El Niño e para a necessidade de se preparar para ele.

Mas enquanto tem gente usando o fenômeno até para manipular eleições, a adaptação segue discreta ou negligenciada. Esta edição da Newsletter do OC é sobre calor: no mundo todo, que está cada vez mais perto de atingir o limite de aquecimento de 1,5ºC previsto no Acordo de Paris, na América Latina, que aquece cada vez mais rápido e com mais intensidade, e até nas Eleições 2026 no Brasil, que recebeu da rede do Observatório do Clima um documento com temas com os quais os candidatos ao pleito deste ano devem se preocupar se querem de fato enfrentar a crise climática – e manter seus eleitores vivos.

Enquanto isso, um time aguerrido de organizações da sociedade civil tenta, na Conferência do Clima de Bonn, manter o tema da transição para longe dos combustíveis fósseis em jogo nas arenas internacionais de negociação climática. Boa leitura!

ONGs pedem inclusão de fósseis na agenda da cop31

Observatório do Clima propõe em Bonn “Chamado de Antália para Roteiros de Transição dos Combustíveis Fósseis”; Suíça defende “plataforma de diálogo”

Foto: Rafael Medelima
A primeira semana da Conferência do Clima de Bonn terminou com um recado claro vindo de organizações da sociedade civil: a transição para longe dos combustíveis fósseis precisa entrar nas negociações formais da COP31 e é urgente que países avancem em seus roteiros nacionais sobre o tema.

Para o Observatório do Clima, as nações devem assumir publicamente, na Cúpula Climática da Turquia, o compromisso de desenvolver seus mapas do caminho até 2027.

É mais que um convite, é o “Chamado de Antália para Roteiros de Transição dos Combustíveis Fósseis”, como sugeriu o OC, em evento comandado pela presidência da COP30 sobre o roteiro global.

“A razão pela qual isso é tão importante — e pela qual tanto a COP30 quanto a COP31 devem se mobilizar em torno dessa proposta — é que, como ocorre com todos os elementos deste sistema, a implementação da transição para longe dos combustíveis fósseis é nacionalmente determinada e os caminhos de transição são diferenciados”, disse

Stela Herschmann, especialista em Política Climática do OC, durante evento convocado pela presidência da COP30 para ouvir os países e a sociedade civil sobre o mapa do caminho para o fim dos fósseis. Herschmann também pediu o estabelecimento de um item de agenda formal na Convenção do Clima para debater a transição.

Por incrível que pareça, não existe um espaço oficial nas negociações climáticas para tratar das principais causas da crise do clima; o mapa do caminho do Brasil precisou ser criado como uma iniciativa informal da presidência por oposição de árabes, Rússia e Índia em Belém no ano passado à sua inclusão na decisão da COP30.

A proposta brasileira não está sozinha. Na sexta-feira (12), uma coalizão de quase 100 organizações da sociedade civil da Turquia e da Austrália – os dois países que vão presidir a próxima Conferência do Clima – divulgou uma declaração conjunta conclamando a presidência da COP31 a colocar a transição para longe do carvão, petróleo e gás na agenda do evento de novembro.

Eles também pedem que os dois países liderem pelo exemplo, desenvolvendo seus próprios roteiros nacionais. De forma mais discreta, no evento de sexta-feira, o EIG (Grupo da Integridade Ambiental), que inclui países como Suíça, México e Peru, pediu o estabelecimento de uma “plataforma contínua de diálogo, aprendizado e cooperação” entre os países em torno de combustíveis fósseis.

Até o momento, Austrália e Turquia estão bastante cautelosas em adotar qualquer postura sobre inserir o tema na agenda formal de negociações. 

Ausentes da sala lotada onde o Brasil apresentou o mapa do caminho estavam os países do Golfo, a Rússia e a Índia.

Foto: Conferência do Clima de Bonn, Alemanha. Crédito: UN Climate Change | Lara Murillo

Chegada do El Niño

Noaa confirma que fenômeno já está ativo

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês) confirmou na quinta-feira (11) o desenvolvimento do fenômeno El Niño no oceano Pacífico tropical.

Segundo a agência, há 63% de probabilidade de que as temperaturas da superfície do mar na região ultrapassem 2°C acima da média, condição que caracteriza um episódio de El Niño “muito forte”.

No início de junho, a Organização das Nações Unidas (ONU) já havia alertado os países para a necessidade de se prepararem para os impactos do fenômeno.

Além de contribuir para a elevação das temperaturas globais, o El Niño altera os regimes de chuva em diversas partes do mundo, intensificando secas em algumas áreas e aumentando as precipitações em outras.

Os efeitos desses eventos são agravados pelas mudanças climáticas.

Ainda sobre El Niño

Fenômeno climático vira desculpa para manipular eleições no Equador

O Super El Niño ainda não chegou com toda força, mas já tem provocado efeitos extremos na política. As próximas eleições do Equador foram adiantadas em 79 dias sob a justificativa de prevenir que ocorram durante o período agudo do fenômeno climático.

A decisão, que inviabiliza a participação do maior partido do país, o Revolución Cuidadana, levou à renúncia do climatólogo Bolívar Erazo, ex-diretor do principal instituto de meteorologia, que contesta os dados utilizados.

Ou seja: o El Niño foi usado como desculpa para beneficiar diretamente o partido do atual presidente Daniel Noboa, um herdeiro bilionário alinhado com a extrema direita.

“Já vimos eleições serem suspensas por furacões, mas uma eleição ser adiantada em função da probabilidade de um evento climático é algo sem precedentes”, disse Pablo Iturralde, coordenador geral do Observatório de Finanças e Clima do Equador, em entrevista para o OC.

Orçamento no fim

Planeta pode atingir 1,5°C de aquecimento até 2030

Temos apenas quatro anos até que a Terra atinja o limite de 1,5ºC de aquecimento, mostrou o relatório Indicadores de Mudanças Climáticas Globais (IGCC), publicado na última quarta-feira (10).

O documento indica que o ritmo em que o planeta acumula calor continua acelerado e que, em 2025, a elevação da temperatura global chegou a 1,37ºC.

Ao invés de caírem, as emissões globais de gases estufa também têm atingido recordes nos últimos anos, com a consequente redução no orçamento de carbono remanescente – a quantidade total de CO2 que ainda pode ser emitida para manter o aquecimento global abaixo da meta estipulada pelo Acordo de Paris.

Termômetro nas alturas

ONU já havia projetado recordes de temperatura para esta década

Um relatório publicado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Met Office do Reino Unido estimou em 86% a probabilidade de que, entre 2026 e 2030, algum ano supere 2024 como o mais quente já registrado. Isso pode acontecer já em 2027, impulsionado pelo retorno do El Niño, fenômeno natural que contribui para o aumento das temperaturas globais e que este ano chega com força total.  

Caliente

América Latina está aquecendo cada vez mais rápido, mostra ONU

O calor extremo está se intensificando na América Latina e no Caribe, mostrou o relatório O Estado do Clima, da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O aquecimento cada vez mais rápido e com maior intensidade fez com que os termômetros registrassem anomalias de até 10ºC acima da média nos últimos anos, em meio a uma sequência de eventos extremos.

O México, uma das sedes da Copa do Mundo, foi a sub-região com o maior ritmo de aumento de temperatura por década. No Brasil, sete ondas de calor foram registradas em 2025.

OC nas Eleições

Rede lança plano sobre clima e meio ambiente para candidatos

O Observatório do Clima lançou nesta semana o documento “Propostas para a Política Ambiental Brasileira, que reúne temas com os quais candidatos aos cargos do Executivo e do Legislativo podem – e devem – se comprometer nas eleições deste ano.

A publicação defende a reversão de retrocessos ambientais promovidos pelo Congresso nos últimos anos e propõe ações para que o Brasil cumpra suas metas climáticas e ambientais com justiça social e distribuição equitativa de recursos, direitos e oportunidades. Leia o documento completo aqui.

Na playlist

Getting Hot, do musicista russo Ivan Malkov.

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