NACIONAL PORTO SEGURO (BA): Indígena Pataxó de 22 anos é assassinado a tiros

15 de março de 2022 Off Por Ray Santos
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Vitor deixa na comunidade sua esposa e dois filhos, um deles, com 30 dias de nascido

NACIONAL | PORTO SEGURO (BA)

Por TERO QUEIROZ – 15/03/22 às 08H34 atualizado em 15/03/22 às 09H10

Vitor Braz de Souza, 22, jovem indígena da etnia Pataxó. Foto: Redes

O indígena Vitor Braz de Souza (Pataxó), de 22 anos, foi assassinado na madrugada segunda-feira (14.mar.22) com dois tiros, no bairro de Ponta Grande, em Porto Seguro, litoral Sul da Bahia.

Pai de um recém-nascido, o jovem e outros indígenas foram a uma casa próximo ao território Pataxó pedir ao vizinho para abaixar o som alto, que incomodava a vizinhança. Depois de sairem do local, Vitor foi perseguido e alvejado pelas costas, por um homem não-indígena. Um dos sisparos atingiu o pecoço do jovem.  

O autor dos disparos fugiu do local no momento do ocorrido. Pela manhã, revoltados, índios se agruparam e incendiaram a casa onde acontecia a festa.

Segundo o delegado Wendel Ferreira, responsável pelas investigações, cinco testemunhas foram ouvidas.

“Já temos o nome do suspeito e já estamos fazendo diligencia. Vamos esperar para qualificar ele direito e pedir a prisão”, disse o delegado.

Vitor deixa na comunidade sua esposa e dois filhos. 

Os pataxós lutam pela retomada da Ponta Grande, considerada historicamente por eles como território indígena, mas a Prefeitura por anos, deixou acontecer uma ocupação irregular de não-índios.

DESCASO

No Twitter, a líder indígena Thyara Pataxó denunciou que a Prefeitura de Porto Seguro deu um alvará liberando uma festa de não indígenas em território de povos tradicionais que ainda não foi homologada.

“Nisso, a comunidade estava incomodada com o barulho, principalmente Vitor que estava com sua esposa de resguardo. Vitor foi atirado pelas costas”, disse a estudante. Ela conta que Vitor era um jovem atuante no movimento Indígena e que participava com muita garra de mobilizações e sempre esteve disposto a lutar pelo coletivo.

“Vitor saiu de casa para reivindicar por um direito seu, por um pouco de silêncio para sua esposa e filho que tá com 30 dias de nascido. Inacreditável a forma como o cacique e demais lideranças e Vitor foram tratados, sem o mínimo de respeito e como forma de impor sobre o nosso território, atiraram contra Vitor em seu pescoço” (sic), disse Thyara.

A liderança Pataxó ainda escreveu o que teriam sido as últimas palavras ditas por Vitor: “Suas últimas palavras no grupo da comunidade ontem a noite, foi: Aqui é comunidade, não é bagunça não. Não é bagunça não!. Os territórios Indígenas seguem sendo atacados, mas ninguém se importa pq somos nós. Nós vivemos em constante guerra (sic)”, escreveu Thyara.  

A FESTA

Um dos organizadores da festa, que nas redes sociais se identifica como ‘Tropa do Grandão’, defendeu que — o que ele chamou de ‘fatalidade’ — não aconteceu dentro da festa e que a culpa pela situação foi de um suposto responsável pelo local do evento.

“A gente tinha liberação até as 00h. O cacique realmente foi lá, até esse momento eu conversei com ele. A culpa não é nossa, a gente estava seguindo os protocolos. O erro maior foi do dono do espaço que não informou ao cacique. E aí terminou nessa situação”, disse o jovem, que também era uma das atrações do evento.

Uma das atrações do evento, Bell Cast, disse também nas redes sociais que a morte não foi dentro do evento e que desconheciam que o local da festa identificada como ‘Sigilo Fest’ era em território indígena. “Fizemos um evento para todo mundo se divertir. O pessoal da casa não esclareceu que ali era área indígena e que não podia. Infelizmente, uma situação muito difícil. Aconteceu longe do evento, mas aconteceu”, disse.

MANIFESTAÇÕES 

O Partido Comunista do Brasil na Bahia (PCdoB), disse se tratar de mais uma barbárie. “As comunidades indígenas estão sendo invadidas e perseguidas, os direitos indígenas estão sendo violados e quase nada é feito para cessar o massacre e salvar as vidas do nosso povo originário. Em razão da impunidade e desprezo do poder público, assassinos se sentem à vontade para exterminar indígenas, usurpar suas terras e destruir suas culturas”, disse o partido, por meio de Nota à imprensa. 

Sem motivos, de maneira covarde e sem possibilidade de reação, o jovem líder Vitor Braz de Souza, da Aldeia Pataxó Novos Guerreiros, município de Porto Seguro, foi brutalmente assassinado. O crime hediondo ocorreu porque a vítima solicitou apenas que os organizadores da “festa paredão” reduzissem o volume do som em respeito ao sossego dos idosos e moradores da comunidade.

Queremos que o criminoso e seus comparsas sejam presos e respondam na cadeia. Chega de impunidade, inércia e licença institucionais para matar indígenas. Os indígenas estão submetidos à pobreza, à miséria, ao racismo e à violência. Vitor morreu principalmente por essas condições, que deveriam ser enfrentadas e tratadas efetivamente pelos órgãos públicos com incumbência constitucional de promover o bem-estar e a dignidade humana da população indígena na Bahia.

Nos solidarizamos com os familiares de Vitor Braz, seus amigos(as), parentes e todas as comunidades indígenas atingidas com este episódio nefasto. Vitor Braz é nosso, morreu por nós e continuaremos lutando por nós e por ele.

Salvador, 14 de março de 2022

Alexandro Reis

Secretário Estadual do PCdoB de Combate ao Racismo

Cacique Aruã Pataxó

Secretário Adjunto da Secretaria Estadual do PCdoB de Combate ao Racismo

Vitor Pataxó, presente!

AAgência de Notícias Indígenas e povos originários -ANIN compartilhou um post do @tukuma_pataxó, que manifestou: 

Sangue Pataxó foi derramado essa madrugada, nosso Guerreiro Vitor Braz Pataxó, estava acompanhando lideranças da Aldeia Novos Guerreiros, para solucionar problemas com não indígena, e foi covardemente baleado e não resistiu

Eu perdi meu primo, ainda não estou acreditando, eu só queria te ver sorrindo mais uma vez, ouvir suas histórias e contar como as coisas estão indo para nós.

Que a justiça seja feita e possamos conseguir mais informações desse ocorrido.

O Conselho Indigenista Missionário – Regional Leste disse que: “repudia veementemente o assassinato dessa jovem liderança, e nos juntamos na cobrança por justiça por essa vida ceifada e contra todas as violências que seguem acontecendo com os Povos Indígenas na região do Extremo Sul. Todo nosso apoio, indignação e solidariedade ao Povo Pataxó nesse momento tão difícil! Tem sido assustador o assassinato de jovens lideranças Pataxó nessa região e cobramos providência! Vitor Pataxó, Presente!”. 

MS Notícias


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