Com quase 38% da população projetada para ter mais de 60 anos em 2070, transformação demográfica pressiona previdência, saúde, trabalho, moradia e patrimônio e exige que empresas e governos repensem a economia da longevidade
Florianópolis, agosto de 2026 — O Brasil conquistou uma das maiores vitórias sociais do último século: viver mais. Mas essa conquista não é distribuída de maneira igual.
Viver mais não significa necessariamente viver com segurança financeira, e uma sociedade longeva precisa enfrentar as duas questões ao mesmo tempo: como financiar mais anos de vida e como garantir que eles possam ser vividos com dignidade.
O questionamento ganha relevância diante de uma transformação demográfica que avança rapidamente. Dados do IBGE mostram que a parcela da população brasileira com 60 anos ou mais praticamente dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6%.
Em 2070, a projeção é que esse grupo represente 37,8% dos habitantes do país.
No mesmo período, a taxa de fecundidade brasileira caiu de 2,32 filhos por mulher, em 2000, para 1,57 em 2023. A expectativa de vida, por sua vez, deverá alcançar 83,9 anos em 2070.
O resultado é uma equação econômica inédita: proporcionalmente, haverá mais pessoas vivendo por mais tempo e menos jovens ingressando nas gerações seguintes.
Para Daline Moura Hällbom, especialista em longevidade e CEO da Söderhem, o Brasil precisa deixar de tratar essa transformação apenas como uma questão previdenciária: “envelhecer não é o problema.
O problema é construir uma sociedade mais longeva sem redesenhar a economia para sustentá-la. Estamos acrescentando anos à vida muito mais rapidamente do que estamos discutindo como esses anos serão financiados, vividos e organizados.”
O fim do bônus demográfico muda a equação
Durante décadas, o Brasil se beneficiou de uma estrutura populacional favorável, com grande contingente de pessoas em idade potencialmente ativa em relação às faixas consideradas dependentes.
Mas essa janela está se fechando. Dados do IBGE mostram que a razão de dependência brasileira voltou a crescer a partir de 2017, impulsionada pelo envelhecimento populacional.
Isso significa que a relação entre pessoas em idade potencialmente ativa e aquelas nas demais faixas etárias começa a se tornar menos favorável.
O impacto dessa transformação vai muito além da Previdência: saúde, mercado de trabalho, habitação, planejamento urbano, serviços financeiros, seguros, consumo e organização das famílias também serão afetados.
“A pergunta ‘quem vai pagar a conta?’ não pode ser respondida apenas com Previdência. Precisamos perguntar quem trabalhará, como acumularemos patrimônio, onde essas pessoas vão morar, quais serviços precisarão consumir e como cidades e empresas vão se reorganizar para uma população que poderá viver 20 ou 30 anos depois dos 60.”
Para Daline, esse é justamente o ponto em que longevidade deixa de ser apenas uma discussão social e passa a ser uma questão de estratégia econômica.
Vinte ou trinta anos que ainda não entraram na planilha
O aumento da expectativa de vida também altera uma das premissas mais importantes do planejamento financeiro individual. O modelo tradicional foi construído em torno de uma trajetória relativamente linear: formação, trabalho, aposentadoria e alguns anos de vida após a saída do mercado profissional.
Uma vida que pode avançar pelos 80 ou 90 anos muda essa lógica: Será necessário financiar mais anos de moradia, alimentação, mobilidade, saúde e, para quem tiver condições, lazer e consumo.
Mas a questão econômica da longevidade não diz respeito apenas ao poder de compra. Diz respeito também a quem chegará aos 70, 80 ou 90 anos sem patrimônio suficiente, dependendo exclusivamente de renda do trabalho, aposentadoria ou redes familiares de apoio.
“Criamos uma sociedade em que chegar aos 80 anos será cada vez mais comum, mas ainda organizamos trabalho, patrimônio e aposentadoria como se a vida adulta terminasse aos 60. Essa conta simplesmente não fecha se não mudarmos a forma como pensamos longevidade.”
Na avaliação da especialista, parte da resposta estará justamente em abandonar a ideia de que uma população mais velha representa apenas aumento de custos.
Pessoas que permanecem saudáveis e autônomas por mais tempo continuam trabalhando, empreendendo, investindo e consumindo e é nesse contexto que cresce internacionalmente a chamada economia da longevidade, que reúne produtos e serviços destinados às necessidades de sociedades que vivem cada vez mais.
Da previdência ao metro quadrado
Um dos setores que terão de responder a essa mudança é o mercado imobiliário. A moradia costuma representar uma das maiores parcelas do patrimônio acumulado pelas famílias brasileiras, com uma característica que ditou o mercado por décadas: imóveis são ativos concebidos para durar décadas.
Para Daline, isso coloca incorporadoras e investidores diante de uma pergunta que ainda recebe pouca atenção: que tipo de imóvel fará sentido para uma população que viverá mais e terá famílias menores?
“Uma pessoa pode chegar aos 60 anos com boa saúde, patrimônio e renda e ainda ter três décadas de vida pela frente.Talvez ela não queira continuar em uma casa grande depois que os filhos saíram. Talvez queira reduzir espaço privado, ter mais serviços, convivência, segurança e mobilidade. Isso muda completamente a lógica do produto imobiliário”, enfatiza a executiva.
Segundo ela, mercados mais maduros já começaram a responder a essa transformação com novos modelos residenciais voltados à longevidade, enquanto o Brasil ainda associa grande parte da discussão sobre moradia para pessoas maduras à necessidade de cuidados: “quando tratamos longevidade apenas como saúde ou assistência, deixamos de enxergar a dimensão econômica dessa transformação. Estamos falando de moradia, patrimônio, consumo e investimento de milhões de pessoas durante décadas.”
Envelhecer antes de enriquecer
O desafio brasileiro ganha uma camada adicional: diferentemente de diversas economias desenvolvidas que passaram por sua transição demográfica depois de alcançar níveis elevados de renda, o Brasil envelhece ainda convivendo com desigualdade, informalidade, baixa capacidade de poupança de parte da população e fortes diferenças regionais. E isso torna a pergunta sobre financiamento da longevidade ainda mais urgente.
Envelhecer antes de enriquecer significa que não podemos imaginar uma economia da longevidade baseada apenas em novos produtos para consumidores de maior renda.
Existe uma parcela enorme da população que chegará à velhice com pouca capacidade de poupança, e para essa população a pergunta não será qual imóvel comprar ou qual serviço contratar, mas como pagar as contas, manter a autonomia e não depender exclusivamente da família.
Para Daline, a resposta precisará envolver Estado, empresas e indivíduos: não haverá uma única solução capaz de financiar uma sociedade mais longeva.
Será necessário combinar políticas públicas sustentáveis, maior participação econômica ao longo da vida, educação financeira, novos produtos de investimento e seguros, adaptação das empresas, novas soluções habitacionais e cidades capazes de preservar autonomia por mais tempo.
“O debate não deveria ser sobre como pagar por uma população longeva. Deveria ser sobre como construir uma economia na qual as pessoas consigam continuar gerando valor, participando e vivendo com autonomia por mais tempo. Quanto mais anos de vida saudável e independente tivermos, melhor será também a equação econômica da longevidade.”
Daline levará a discussão sobre os impactos da transformação demográfica à SOUBIO Experience 2026, em Florianópolis, onde participa do debate sobre o futuro de uma sociedade que viverá cada vez mais. Para ela, talvez a pergunta mais importante não seja quanto custará o envelhecimento brasileiro, mas quanto custará ao país não se preparar para ele.
“O Brasil vai envelhecer de qualquer maneira. Essa parte da história já está escrita pela demografia. O que ainda podemos escolher é como essa longevidade será financiada e, principalmente, para quem ela será uma conquista. Não podemos construir uma economia em que viver mais seja um privilégio de quem conseguiu acumular patrimônio. Precisamos criar condições para que os anos adicionais de vida sejam acompanhados de autonomia, dignidade e participação econômica. A conta da longevidade será paga por todos nós. A questão é se começaremos a planejá-la agora ou quando ela já tiver vencido.”, finaliza.
Serviço:
SOUBIO Experience 5a edição
21 e 22 de agosto
Panorama Conceição
Lagoa da Conceição
Florianópolis, SC
Inscrições: https://soubioexperience.com.br
Saiba mais: https://www.instagram.com/soderhem.seniorliving/
Informações para a imprensa: Planta e Cresce | katizanatta@plantaecresce.com.br | (11) 99497-8523
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Katiuscia Zanatta
katizanatta@plantaecresce.com.br
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