PANDEMIA, SONO E DISFUNÇÃO ERÉTIL SÃO TEMAS DE ESTUDO DO INSTITUTO DO SONO

24 de fevereiro de 2022 Off Por Ray Santos
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Há evidências de que o estresse resultante da crise sanitária tem provocado distúrbios de sono, que contribuem para o transtorno sexual. O efeito combinado entre certas alterações de sono e a COVID-19 também foi investigado para explicar o fenômeno.

Foto: Instituto do Sono/Google

Os distúrbios de sono estão entre os fatores associados à disfunção erétil, um problema que atinge milhões de homens ao redor do mundo.

Noites mal dormidas têm o potencial de afetar a saúde mental, diminuindo o desejo sexual necessário para a ereção. As alterações de sono também podem comprometer a produção de hormônios e a pressão arterial, prejudicando o fluxo sanguíneo e a rigidez peniana. Com a pandemia, os pesquisadores do Instituto do Sono decidiram investigar na literatura científica como a COVID-19 se encaixa na delicada relação entre sono e disfunção erétil.

“Embora haja evidências crescentes de que a pandemia tenha tido um efeito sério sobre o sono, poucos pesquisadores estudam como os distúrbios de sono podem estar relacionados ao aumento relatado na incidência de disfunção erétil”, explica a biomédica Monica Andersen, Diretora de Ensino e Pesquisa do Instituto do Sono e Professora Livre-docente do Departamento de Psicobiologia, que realizou o estudo ao lado do Dr. Sergio Tufik, Presidente do Instituto do Sono e Professor Titular da Unifesp. 

Os mecanismos da falta de sono sobre a atividade sexual vêm sendo estudados há anos por grupos de pesquisas preocupados em desenvolver estratégias para melhorar a qualidade de vida da população. Um estudo sugeriu que uma 1 hora a mais de sono estava associada ao aumento de 14% na atividade sexual.

Já em pessoas com distúrbios de sono, a produção de hormônios pode ser reduzida, o que pode levar à diminuição do desejo sexual, da função erétil e da fertilidade.

Apneia Obstrutiva do Sono e COVID-19

Entre as alterações de sono associadas ao risco aumentado de disfunção erétil está a apneia obstrutiva do sono, que se caracteriza por episódios recorrentes e intermitentes de obstrução das vias aéreas, que levam à cessação total ou parcial do fluxo de ar.

Pode causar ronco, fragmentação de sono, sonolência excessiva diurna, cansaço, redução da memória e alterações de humor. Só na cidade de São Paulo, 40,6% dos homens apresentam a doença, como revela um estudo realizado com dados do EPISONO, pesquisa realizada pelo Instituto do Sono.

O distúrbio de sono reduz a produção do hormônio masculino, a testosterona, e diminui a saturação de oxigênio, levando à disfunção erétil. “Assim como a apneia obstrutiva do sono, a COVID-19 também diminui a taxa de oxigênio no organismo”, esclarece Monica Andersen. Estudos sugerem que a apneia do sono é um fator de risco para os quadros graves e morte pela doença.

Um estudo de meta-análise de 21 artigos apoiou essa hipótese, relatando que o distúrbio de sono estava associado a desfechos mais sérios da COVID-19. Embora não haja descrição dos mecanismos envolvidos na associação da apneia obstrutiva do sono com a COVID-19, é razoável supor que a relação bidirecional de ambas as doenças possa produzir um efeito combinado, potencialmente agravando a disfunção erétil.

A apneia obstrutiva do sono grave e a COVID-19 compartilham muitos desfechos clínicos, como inflamação do organismo e a diminuição prolongada da saturação de oxigênio. Ambas têm prognóstico pior quando associadas à comorbidades, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.

Por isso, os pesquisadores enfatizaram a importância do monitoramento da relação bidirecional entre os distúrbios de sono e o COVID-19 para evitar resultados ainda mais graves.

Não está claro como o COVID-19 afeta a produção de testosterona. Um estudo com 46 indivíduos do sexo masculino infectados com SARS-CoV-2 e assintomáticos revelou que 65,2% deles relataram perda de libido, tendo sido registrada uma associação marcante entre a gravidade da COVID-19 e a diminuição dos níveis de testosterona.

“A ocorrência paralela de distúrbios de sono pode ser um fator adicional para reduzir a produção hormonal, levando tanto ao aumento da prevalência da disfunção erétil, quanto ao agravamento da COVID-19”, observa Monica Andersen. Este pode ser o caso em relação à apneia obstrutiva do sono associada à disfunção erétil e piores resultados do COVID-19.

Efeitos psicológicos da pandemia, sono e sexualidade

A pandemia da COVID-19 resultou no aumento das notificações de transtornos psicológicos. Mais de 20 estudos levantados por pesquisadores da Universidade de Ciências Médicas de Kermanshah, no Irã, analisaram o perfil psicológico de mais de 70.000 indivíduos, constando a prevalência de ansiedade entre 29% e 32%.

Outros 14 estudos, envolvendo 44.531 indivíduos, mostraram que a prevalência de depressão chegou a quase 34% após o início da pandemia.

A incidência de ansiedade, depressão e problemas conjugais provocados pela pandemia pode alterar o ciclo de vigília-sono, aumentando assim a prevalência de distúrbios de sono.

No Brasil, uma pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto do Sono revelou que 55,1% dos 1.600 entrevistados alegaram piora do sono. O aumento das preocupações foi o principal motivo apontado, tendo sido citado por 75,1% dos participantes. 

Ao abordar a qualidade de sono, a pesquisa revelou que 66,8% tiveram mais dificuldade para dormir; 61,6% passaram a dormir mais tarde; e 59,4% acordaram mais vezes durante a noite.  

“Os efeitos combinados do estresse induzido pela pandemia e a má qualidade de sono podem ser responsáveis pela prevalência da disfunção erétil”, observa a biomédica Monica Andersen.

Homens com ansiedade e depressão são mais propensos a relatar disfunção erétil, falta de libido e frequentemente experimentam ansiedade quanto ao desempenho durante a relação sexual.

Alguns pesquisadores se dedicaram a analisar o impacto social e psicológico da COVID-19 sobre a vida sexual. Um estudo de revisão apontou a prevalência de 63,6% de disfunções sexuais em profissionais de saúde que trabalham durante a pandemia, ante 31,9% prevalentes em pessoas que não atuam neste setor.

O envolvimento sexual ativo pode reduzir a ansiedade e depressão na pandemia. Um estudo apontou que 49% da amostra de 2.149 indivíduos revelaram melhora de suas atividades sexuais.

A tendência foi mais forte em casais que coabitam, mas os homens que relataram um impacto negativo da pandemia em suas vidas sexuais apresentaram aumento da disfunção erétil e disfunções orgásmicas associados a sintomas, como ansiedade e insônia.

“Por isso é importante que os casais, durante a pandemia, procurem melhorar o diálogo e não esquecer as noites de namoro, a fim de manter uma vida sexual ativa e boas noites de sono”, conclui Monica Andersen.

Sobre o Instituto do Sono

O Instituto do Sono é um centro de referência mundial em pesquisa, diagnóstico e tratamento em distúrbios de sono.

Fundado em 1992 pelo Professor Sergio Tufik, é formado atualmente por mais de 100 colaboradores, entre eles médicos de diversas especialidades, técnicos, psicólogos, biólogos, biomédicos, dentistas, assistentes sociais, enfermeiras, fisioterapeutas, educadores físicos e pesquisadores.

Além do atendimento à população, conta com uma área de educação continuada que já capacitou mais de 4.000 médicos e outros profissionais de saúde – www.institutodosono.com.

O Instituto do Sono faz parte da AFIP (Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa), uma instituição privada, sem fins lucrativos e filantrópica, fundada por profissionais da área da saúde, professores universitários e pesquisadores há mais de 40 anos.

Seu objetivo é fornecer suporte financeiro para atividades de docência, pesquisa científica e atendimento médico à população. www.afip.com.br .

Nova Ferreira


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