
Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos: Foto Linkedkln
Os mercados iniciam a semana sob o desconfortável lembrete de que a geopolítica continua sendo uma das formas mais caras de a realidade interromper as projeções econômicas.
A nova escalada entre Estados Unidos e Irã elevou o Brent para perto de US$ 79 por barril, diante da redução do fluxo de embarcações e das versões conflitantes sobre o funcionamento do Estreito de Ormuz.
Quando uma passagem marítima concentra parte relevante da energia mundial, qualquer míssil lançado no Oriente Médio aterrissa diretamente na inflação do Ocidente.
A reação apareceu rapidamente nos ativos globais: futuros americanos recuaram, bolsas asiáticas sofreram e o Kospi caiu aproximadamente 9%, pressionado também por uma forte realização nas empresas de semicondutores.
O petróleo mais caro favorece companhias do setor energético, mas aumenta custos para transportes, indústria e consumo, além de reduzir a liberdade dos bancos centrais para cortar juros. A guerra pode até acontecer longe das bolsas, mas nunca longe dos preços.
Nos Estados Unidos, a semana concentra dados de inflação, pronunciamentos do Federal Reserve e o início da temporada de balanços, com grandes instituições financeiras entre as primeiras empresas a divulgar resultados.
O mercado acompanhará especialmente o CPI e o depoimento semestral de Kevin Warsh ao Congresso, enquanto tenta calcular quanto da recente pressão energética poderá contaminar as expectativas de juros.
Wall Street adora previsibilidade, embora tenha construído uma indústria inteira para negociar justamente a ausência dela.
A temporada de resultados também testará se as altas avaliações das empresas americanas continuam sustentadas por crescimento real de lucros ou apenas pela disposição dos investidores de pagar cada vez mais caro pelas mesmas narrativas.
Bancos, tecnologia, inteligência artificial e semicondutores estarão no centro da atenção, em um momento no qual o capital continua abundante, porém muito menos indulgente com resultados medíocres.
Expectativa é um ativo valioso, mas não costuma sobreviver por muitos trimestres sem lucro.
No Brasil, o Relatório Focus trouxe uma redução importante na projeção do IPCA de 2026, de 5,30% para 5,16%, enquanto a estimativa de Selic permaneceu em 14,00%.
Para 2027, a inflação esperada subiu ligeiramente para 4,20%, com juros projetados em 12,00%, mostrando que a melhora de curto prazo ainda não foi suficiente para convencer o mercado de que o problema inflacionário está definitivamente resolvido. A inflação recuou na planilha, mas ainda não pediu desculpas ao orçamento das famílias.
A surpresa favorável do IPCA de junho fortaleceu as apostas em corte de juros e provocou fechamento expressivo da curva, com queda superior a 20 pontos-base em alguns vencimentos e alta próxima de 3% do Ibovespa na última sessão.
Entretanto, a nova disparada do petróleo devolve parte da complexidade ao cenário, pois combustíveis mais caros podem contaminar transporte, produção e expectativas.
O mercado passou a sexta-feira celebrando a desinflação e começou a segunda-feira recebendo a conta do barril.
No campo político, a pesquisa BTG/Nexus mostra Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 34%, enquanto um eventual segundo turno aparece dentro da margem de empate técnico, em 47% a 44%.
A rejeição permanece elevada para os dois principais nomes, com 46% para Lula e 50% para Flávio, revelando um eleitorado dividido não apenas por preferência, mas também por resistência.
A avaliação econômica acrescenta uma camada de pressão ao processo eleitoral: 53% consideram a economia ruim ou péssima, enquanto apenas 15% a classificam como ótima ou boa.
Para o mercado, pesquisas não servem para escolher candidatos, mas para mensurar probabilidades sobre política fiscal, reformas, estatais, tributação e trajetória da dívida.
A urna decide o governo; a curva de juros decide quanto o país pagará por ele.
Adriano Santos
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