Romper as amarras da alma

Wilson Aquino*

Há correntes que não se veem, mas se sentem. Correntes invisíveis que nos prendem por dentro — nas pernas que hesitam, nas mãos que tremem, na voz que se cala diante do medo.

São amarras tecidas por lembranças, por culpas antigas, por palavras não ditas e sonhos adiados. Muitos caminham pela vida como Forrest Gump, com as pernas presas por ferragens, tentando seguir em frente enquanto o peso das próprias dúvidas os impede de correr.

Até que um dia, impulsionados por um grito de coragem — “Corre, Forrest! Corre!” —, descobrem que a liberdade mora justamente no instante em que ousamos romper o que nos aprisiona.

Cada um de nós tem seus próprios grilhões. Há quem esteja acorrentado a um passado que não volta mais, a um ressentimento que corrói a alma, a uma rotina que sufoca, a um medo que paralisa.

Outros estão presos à opinião alheia, vivendo a vida que os outros esperam, doutrinados, e não aquela que Deus sonhou para eles.

Essas amarras não são de ferro, mas pesam como chumbo no coração e na alma. E a vida, que deveria ser um rio de movimento e esperança, torna-se um lago parado, onde os dias se repetem sem brilho.

Mas há aqueles que romperam suas amarras e se transformaram em luz para o mundo.

Como Nick Vujicic, o australiano que nasceu sem braços e pernas, mas que, em vez de se lamentar, descobriu em Deus a força para viver plenamente — tornando-se palestrante, escritor e exemplo de superação para milhões.

Ou como Helen Keller, que ficou cega e surda ainda bebê, mas aprendeu a falar, ler e escrever, formou-se com honras e dedicou a vida à educação e à inclusão.

Há também histórias silenciosas e diárias — da mãe solo que cria os filhos com dignidade, do idoso que volta a estudar, do jovem que abandona o vício, o tráfico e reencontra a fé.

Todos eles aprenderam a correr, mesmo com as pernas feridas da alma.

Romper essas amarras exige coragem — e fé. Coragem para olhar dentro de si e reconhecer o que precisa ser deixado para trás.

Fé para acreditar que Deus não nos fez para rastejar, mas para caminhar eretos, de cabeça erguida, como filhos Dele.

O Salvador prometeu não nos deixar órfãos: deixou-nos o Espírito Santo, que sussurra ao nosso coração quando é hora de agir, de mudar, de se libertar.

Quando ouvimos essa voz e damos o primeiro passo, o peso cai, as correntes se desfazem, e o vento da esperança sopra novamente.
Como está escrito: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).

E também: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).

Essas promessas são o lembrete de que a liberdade verdadeira começa quando confiamos plenamente em Cristo — e deixamos que Ele desate os nós do nosso coração.

O Élder Dieter F. Uchtdorf, do Quórum dos Doze Apóstolos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ensinou que “a fé é a força que nos impulsiona através das dificuldades, a ponte que liga o que somos ao que podemos nos tornar”.

Ele nos lembra que muitas das correntes que nos prendem são feitas de medo e dúvida — e só a fé em Cristo pode dissolvê-las.

Quando confiamos Nele, aprendemos a dar o primeiro passo mesmo sem ver o caminho inteiro.

É nesse caminhar pela fé que descobrimos que as grades que nos cercavam estavam, na verdade, apenas dentro de nós.

Em um de seus discursos mais comoventes, o élder Jeffrey R. Holland, disse: “Não há correntes tão pesadas que o amor do Salvador não possa quebrar.

Não há abismos tão profundos de onde Ele não possa nos erguer.”

Ele recorda que todos nós, em algum momento, precisamos de libertação — das dores, das culpas, das fraquezas.

E que Cristo, que libertou o cego, o paralítico e o endemoninhado, continua libertando corações.

Sua voz ainda ecoa, suave e firme: “Levanta-te e anda!”.

Ele não apenas nos convida a romper as amarras, mas nos dá força para fazê-lo.

Essas palavras sagradas ecoam como faróis em meio à escuridão da dúvida, reafirmando que a verdadeira liberdade não se conquista pela força dos músculos, mas pela entrega da alma Àquele que nos redime.

É nas mãos de Jesus Cristo que todas as correntes se partem e todos os nós se desfazem.

Nele, aprendemos que o impossível é apenas uma palavra que perde o sentido quando o amor de Deus age em nosso favor.

A liberdade verdadeira nasce no interior da alma. Não é apenas poder ir e vir, mas poder ser — ser quem somos, com nossos dons, nossa fé e nossa essência.

Ser livre é ter coragem de amar, de perdoar, de recomeçar.

É viver sem medo de errar, porque sabe que Deus sempre oferece novos caminhos a quem busca com sinceridade.

Como Forrest, todos nós podemos correr — livres das ferragens da dúvida, das tiras do conformismo — e sentir no rosto o vento leve da graça divina.

Como o apóstolo Paulo declarou: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13).

E se ele, preso em correntes reais, encontrou liberdade interior pela fé, por que nós, com nossas prisões invisíveis, não haveríamos de encontrar?

Por isso, ensine seus filhos a não se deixarem amarrar.

Ensine-os a ouvirem o coração, a buscar o bem, a confiar em Deus e em si mesmos.

Porque o mundo tentará prendê-los com laços dourados de vaidade, ideologias e falsas promessas.

Mas quem aprende cedo a romper as amarras do medo e da mentira, cresce leve, confiante, preparado para viver o que a vida tem de mais belo: a liberdade de ser feliz.

Romper as amarras da alma é, enfim, dizer a si mesmo: “Eu posso!”.

É escolher o amor em vez do rancor, a fé em vez do medo, a esperança em vez da desistência.

E, ao fazer isso, sentir que o céu se abre, o coração se alivia e a vida — ah, a vida — volta a correr dentro de nós com a leveza de quem reencontrou o verdadeiro sentido de existir.

*Jornalista e Professor

wilsonaquino2012@gmail.com