Transnordestina: oportunidades e desafios para o desenvolvimento

A ferrovia que cortará 1.757 km dos estados de Pernambuco, Ceará e Piauí demanda investimentos de R$15 bilhões e é essencial para o agronegócio e a mineração

Por Isabelle Barbosa03/03/26 às 06H00

Até o momento, 676 quilômetros da ferrovia já foram concluídos e outros 280 quilômetros estão em execução – Foto: TLSA/Divulgação
A Transnordestina está mais perto de tornar-se protagonista de uma importante mudança logística no Brasil. A obra assumirá papel estratégico ao integrar polos produtivos do interior aos principais portos do Nordeste. Com investimento total estimado em R$15 bilhões, o projeto contempla ferrovias nos estados de Pernambuco, Ceará e Piauí.

Estão previstos 1.757 quilômetros de extensão de ferrovia, sendo 1.209 quilômetros correspondentes à linha férrea entre o Piauí e o Ceará, passando por Salgueiro (PE), e mais 548 quilômetros no ramal de Pernambuco – Salgueiro ao Porto de Suape. Até o momento, 676 quilômetros já foram concluídos e outros 280 quilômetros estão em execução.

“O nosso objetivo é desenvolver o setor ferroviário no eixo Nordeste para integrar a região ao resto do país e promover competitividade entre os portos, sobretudo Suape e Pecém”, aponta o secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro.

Folha de Pernambuco

Notícias pelo WhatsAppReceba as notícias exclusivas da Folha de Pernambuco pelo nosso canal.

Entrar no canal

Leonardo Ribeiro, secretário nacional de transporte ferroviárioLeonardo Ribeiro, secretário nacional de transporte ferroviário | Foto: Michel Corvello/MT

O secretário detalha que a Transnordestina foi pensada como um projeto estruturante em múltiplas dimensões: “Dimensão econômica, porque o empresário paga frete menor e gera renda e emprego; social, porque, ao integrar o Nordeste com o resto do país, trazemos equilíbrio de renda e reduzimos desigualdades; e dimensão ambiental, já que uma locomotiva com 100 vagões retira 300 caminhões da estrada, reduzindo emissões de gases poluentes”, afirma Leonardo.

A obra é financiada com recursos federais, pelo Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) – administrado pela Sudene, Banco do Nordeste (BNB), Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Infra S.A., ligada ao Ministério dos Transportes.

O trecho Eliseu Martins (PI) – Salgueiro (PE) – Pecém (CE) é de responsabilidade da concessionária Transnordestina Logística S.A. (TLSA). Já o restante do traçado pernambucano, que chegou a ser retirado do projeto, será retomado entre Custódia e Arcoverde, por empresa em processo de licitação.

Estratégia
A Transnordestina nasce como um corredor essencial para o agronegócio e a mineração. Soja, milho, minério e combustíveis devem ser as principais cargas transportadas. Em Pernambuco, a ferrovia deve dinamizar setores estratégicos, como a indústria de baterias em Belo Jardim, a produção de milho do polo avícola do Agreste e a extração de gesso no Araripe.

“A estratégia é iniciar com obra pública, já temos garantia via orçamento federal. Depois, vamos avaliar o melhor momento para conceder ao setor privado. Os estudos serão concluídos até 2027″, ressalta Leonardo Ribeiro. Estima-se que 45 milhões de toneladas de mercadorias sejam transportadas pela ferrovia em 2050.

O trecho Eliseu Martins (PI) – Salgueiro (PE) – Pecém (CE) recebe financiamento da Sudene, é o mais adiantado e terá duas entregas. A fase 1 é prevista para 2027 e a fase 2, para 2028. “O FDNE já liberou R$4,87 bilhões de reais em financiamento, com previsão de mais R$2,6 bilhões até 2027”, detalha o superintendente da Sudene, Francisco Ferreira Alexandre.

Francisco Ferreira Alexandre, Superintendente da SudeneFrancisco Ferreira Alexandre, Superintendente da Sudene | Foto: Ascom/Sudene

Já o traçado de Pernambuco é o mais atrasado, com construção finalizada somente no trecho entre Salgueiro e Custódia, que compreende 179 quilômetros. No governo anterior, o contrato foi revisto e o trecho pernambucano foi retirado do projeto, sob a justificativa de inviabilidade técnica e econômica.

Em outubro de 2025, o ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciou a retomada das obras em Pernambuco. A Infra S.A. divulgou edital para a construção do trecho entre Custódia e Arcoverde, totalizando 73 quilômetros de extensão, com recursos 100% da União. O investimento máximo para o trecho é de R$415 milhões, com abertura do certame em janeiro de 2026.

“Em Pernambuco já temos 179 quilômetros construídos, cerca de R$4 bilhões investidos. Precisamos construir 360 quilômetros, o que deve dar em torno de R$7 bilhões”, aponta o secretário nacional Leonardo Ribeiro, destacando que o traçado até o Porto de Suape deve ser concluído em 2029.

Desafios
Apesar do potencial econômico da Transnordestina, o projeto do trecho pernambucano enfrenta problemas técnicos que podem comprometer sua operação se não forem corrigidos. Para o engenheiro e professor Maurício Pina, trata-se de detalhes de engenharia que exigem ajustes urgentes, como bitola incompatível: o trecho de Salgueiro até Custódia, já construído, é de bitola larga (1,60 m), enquanto o restante da ferrovia utiliza bitola mista, combinando bitola larga e métrica (1 m), permitindo a circulação de trens pesados e leves, possibilitando baratear o transporte de cargas menores.

Maurício Pina, engenheiro e professor da UnicapMaurício Pina, engenheiro e professor da Unicap | Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Sobre ajustar a área já finalizada no estado, Maurício Pina ressalta: “Não é só colocar um terceiro trilho. Cada dormente precisaria de corte ou substituição. São quase 300 mil peças. Se não corrigirem, daqui a 10, 15 anos, a ferrovia estará pronta, mas não vai chegar trem em Suape”, alerta.

Outro problema é que a ferrovia passará por rampa acentuada próxima a Arcoverde. Um trecho íngreme de 88 quilômetros que exigiria uma locomotiva auxiliar, conhecida como helper, para tracionar os trens. Isso aumentaria os custos e anularia a vantagem de distância do trajeto para Suape.

“Imagine uma carga em Salgueiro querendo ir para Suape. Salgueiro–Suape é mais curto, cerca de 80 km a menos, mas com a declividade e a necessidade de locomotiva extra, o custo aumenta, e o dono da carga optará por Pecém. É um problema grave para Pernambuco”, pontua o professor.

Outra situação é o traçado distante de polos produtivos do estado. Maurício aponta que a ferrovia passará longe de importantes áreas industriais e agrícolas, exigindo transporte rodoviário complementar. Belo Jardim, por exemplo, está 16 quilômetros distante da linha do trem, o que gerará custos extras.

Para o especialista, o futuro da ferrovia depende de intervenção técnica e gestão adequada, com participação local e ajustes de engenharia. “O projeto não pode ser feito em Brasília sem ouvir o Crea, a Academia Pernambucana de Engenharia e outras entidades locais. Estamos encaminhando documentos para tentar corrigir os erros. Caso contrário, a ferrovia será construída, mas Suape não receberá trens”, diz Maurício.

Em Pernambuco já foram construídos 179 quilômetros de ferrovia e investidos cerca de R$4 bilhõesEm Pernambuco já foram construídos 179 quilômetros de ferrovia e investidos cerca de R$4 bilhões | Foto: TLSA/Divulgação

Ganhos
Para Pina, o potencial da Transnordestina vai muito além do transporte de mercadorias: a ferrovia poderá reduzir o tráfego de caminhões nas rodovias, diminuir acidentes e aliviar a pressão sobre a BR-232, que corta o estado. “Ao construir a ferrovia, não só haverá benefício econômico, mas também redução de acidentes e congestionamentos”, afirma o professor.

O secretário nacional de Transporte Ferroviário prevê redução de até 50% no valor do frete. “O legado vai acontecer especialmente na empregabilidade e na geração de renda. Muitos terminais serão construídos. Ao redor deles teremos restaurantes, hotelaria, postos de gasolina, negócios que vão gerar renda, emprego e desenvolvimento”, aponta Leonardo Ribeiro.

O interior pernambucano deve receber investimentos acessórios ligados à operação da ferrovia. “Há a necessidade de implantação de portos secos em cidades estratégicas como Salgueiro e Caruaru, além de pátios de cruzamento”, afirma o superintendente da Sudene. Ele acrescenta a necessidade de oficinas e pátios de manobra para manutenção e abastecimento dos trens.

“Com a interligação com a Transnordestina, Suape diversificará a sua matriz operacional, com a expectativa de dobrar a sua capacidade de movimentação de cargas”, ressalta Francisco Ferreira.

Folha de Pernambuco

Continue sempre bem informado acessando nossos portais:

  • Jornal Dia Dia – Sua fonte confiável para as melhores notícias e artigos úteis. Fique por dentro dos acontecimentos mais importantes, dicas práticas e conteúdos de qualidade.
  • Jornal Brasil Regional (JBR) – O pulso do país em tempo real. Notícias nacionais, regionais e internacionais com ética e credibilidade.
  • Castilho Notícias (News) – O seu diário local com cobertura de Castilho e Região (SP). Jornalismo com credibilidade.
  • Casa e Jardim – Dicas exclusivas sobre decoração, jardinagem, arquitetura, DIY, reformas e muito mais. Tendências, soluções práticas e ideias criativas para todos os estilos e orçamentos.
  • B10 Brasil – As principais notícias, análises e insights sobre negócios, economia e soberania nacional. Conectando o Brasil ao mundo com inteligência e estratégia.