Acto usou declaração do Senai em licitação, mas não provou que prestou os serviços
Gabriel Maymone – 22/07/2026 – 07:29
Presidente da Fiems, Sérgio Longen, ao lado de seu vice, Luiz Gonzaga Crosara Júnior. (Divulgação, Fiems)
As suspeitas sobre o suposto uso de uma rede de CNPJs laranjas ligados a diretores da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul) não são novas nem entre as entidades do Sistema S. O Senar-MS (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso do Sul), por exemplo, barrou a empresa Acto numa licitação de R$ 2,2 milhões.
Criada por Luiz Gonzaga Crosara Júnior, vice-presidente da Fiems, a Acto Soluções em Tecnologia (CNPJ 31.356.145/0001-53) faturou ao menos R$ 7.698.228,20 da entidade, entre 2021 e 2022, mas não conseguiu comprovar a execução dos serviços contratados na licitação do Senar-MS.
Ex-funcionários revelaram com exclusividade ao Jornal Midiamax que as empresas ligadas ao grupo do atual presidente da Fiems, Sérgio Longen, tentaram abocanhar contratos milionários em diversas instâncias do Sistema S.
Com a ‘voracidade’ do grupo, a rede de CNPJs supostamente criados para faturar contratos em serviços de difícil mensuração, como serviços de TI, produção audiovisual ou locação de materiais para eventos, passou a enfrentar dificuldades nas instituições onde a influência de Longen diminuiu.
No caso da Acto, por exemplo, que foi ‘sucedida’ nos contratos do Sistema Fiems por outra empresa criada no nome de funcionários de Crosara, a empresa foi inabilitada pela comissão de licitação do Senar-MS por não conseguir comprovar a efetiva prestação dos serviços alegados em atestados contratuais.

Cadastrada na Receita Federal, tendo como principal atividade econômica o desenvolvimento de programas de computador e detentora de contratos milionários com o Sistema S, a Acto não conseguiu comprovar ter capacidade técnica na disputa de R$ 2,2 milhões para criar e gerenciar programas de computador para o Senar-MS.
Além disso, usou a própria estrutura de instituições ligadas à Fiems, como o Senai-MS, para tentar ‘esquentar’ a documentação que apresentou na entidade irmã. Não deu certo.
Desde que iniciou uma série de reportagens sobre as denúncias que envolvem a gestão de Sérgio Longen à frente da Fiems, o Jornal Midiamax tenta obter posicionamento oficial da entidade e de todos os implicados. Inicialmente, Crosara chegou a responder e negou qualquer irregularidade.
No entanto, diante de novas evidências que vieram à tona durante a investigação jornalística, o vice-presidente de Longen na Fiems passou a ignorar as tentativas de contato, todas devidamente documentadas. Desde o dia 1º de julho, as mensagens enviadas pela reportagem são ignoradas. Mensagens enviadas por diversos endereços de e-mail também não foram respondidas. O espaço segue aberto para posicionamento.

Na tentativa de habilitar a empresa no Pregão Presencial n. 049/2022 do Senar-MS, a Acto apresentou cinco atestados de capacidade técnica emitidos pelo Sesi-MS (contratos nº 32600/2020; 28900/2019; 27300/2019; 34000/2020; e 36000/2021).
Todos foram recusados pela equipe técnica da licitação, que concluiu que “os atestados apresentados pela licitante [Acto] não contemplaram na sua integralidade as atividades desenvolvidas [nos contratos com o Sesi], restando uma lacuna entre as informações constantes nos documentos e os serviços de fato executados; não foi apresentado nenhum relatório detalhado, acompanhado das telas comprobatórias dos serviços prestados.“
O documento assinado pelo superintendente do Senar-MS, Lucas Galvan, coloca em xeque outro ponto do atestado emitido pelo Sesi sob encomenda para a Acto: “A utilização de linguagens backend PHP e C# não são comumente utilizadas para o desenvolvimento de um único software, pois não são compatíveis e raramente são utilizadas juntas em uma solução“, conforme atestado em parecer técnico da comissão de licitação.
A equipe técnica do Senar chegou a pedir documentos que comprovassem esses serviços prestados ao Sesi, como “contratos, relatórios de execução, prints de tela da plataforma, notas fiscais e/ou qualquer outro material que corroborasse as informações contidas no atestado”, diz o documento, trazendo na sequência que restou “incompleta a comprovação da qualificação técnica”.
A Acto chegou a recorrer da decisão de inabilitação, mas a CPL (Comissão Permanente de Licitação) e o superintendente do Senar-MS, Lucas Galvan, negaram provimento ao recurso, confirmando o veto definitivo à participação da empresa no certame.

Serviços de difícil mensuração e atestados genéricos
Entidades como o Sesi e o Senai são sustentadas com contribuições patronais de industriários e recursos parafiscais, que são tributos arrecadados pelo Estado, mas parte dessa receita é repassada a essas entidades, classificadas como de interesse público ou social. Somente este ano, o Sistema S deve receber cerca de R$ 60 milhões repassados por intermédio da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil.
Os contratos entre a Acto e o Sistema S foram considerados inaptos pelo Senar-MS por três motivos: ausência de relatórios detalhados de execução, não apresentação de prints de tela de plataforma/evidências de sistemas e falta de detalhamento das tecnologias aplicadas. Por exemplo, os contratos nº 27300/2019 e 32600/2020 previam atividades abstratas, como consultoria, diagnósticos organizacionais e gestão de mudanças.
Faturados predominantemente sob a modalidade de ‘horas técnicas’, esses contratos geram relatórios, pareceres e planilhas de difícil verificação por órgãos de controle, que não conseguem aferir se os valores milionários pagos correspondem ao custo real de mercado das horas declaradas.
Foi exatamente essa intangibilidade que travou as pretensões da Acto perante o Senar-MS. Ao ser convocada a detalhar a execução real dos serviços prestados ao Sesi-MS por meio de relatórios de medição, notas fiscais e telas das plataformas desenvolvidas, a empresa não conseguiu comprovar a entrega efetiva de soluções computacionais práticas.

Vale ressaltar que os contratos milionários com o Sesi foram celebrados e executados em período anterior à posse de Luiz Gonzaga Crosara Júnior como vice-presidente da Fiems. No entanto, a posterior ascensão do empresário ao alto escalão da entidade reacende o debate sobre os mecanismos de governança, transparência e controle na aplicação dos recursos parafiscais do Sistema S.
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A reportagem procurou a Acto Soluções em Tecnologia, bem como os controladores da empresa, Luiz Gonzaga Crosara Júnior e Felipe Moisés Miranda de Britto — que chegou a visualizar as mensagens, mas não respondeu —, para manifestação sobre a inabilitação e as conclusões do parecer técnico pelo Senar-MS, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
O Sesi-MS e a Fiems também foram questionados sobre os procedimentos de fiscalização das entregas e atestações dos contratos citados, mas sem retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.
Suspeita de ser laranja na Fiems, Blackbird também apresentou atestado do Sesi
Criada por dois funcionários da Acto meses após Crosara ser empossado como vice-presidente da Fiems, a Blackbird Soluções em Tecnologia Ltda. (CNPJ 52.964.854/0001-91) assumiu um contrato com o Sistema S que estava sendo executado pela Acto.
Já em 2025, a Blackbird se inscreveu para uma licitação de R$ 1.489.996,80, apresentando um atestado de capacidade técnica emitido pelo Sesi-MS, alegando que a pequena empresa recém-criada com capital social de R$ 5 mil e sediada numa vila de casas cumpriu mais de 1,3 mil horas de serviço num intervalo de ‘poucos meses’.

No entanto, a licitação acabou cancelada após ser alvo de denúncia de irregularidades.
Contudo, denúncia feita por ex-funcionários do Sistema Fiems revela parte do emaranhado de CNPJs usados para atestar a capacidade técnica da Blackbird.
O outro atestado foi emitido pela Dataneural Tecnologia da Informação Ltda. (CNPJ 54.347.643/0001-35). A empresa tem entre os controladores a holding WTW Investimentos e Participações Ltda. (CNPJ 42.706.554/0001-59) e outra empresa que também aparece como fornecedora do Sistema Fiems.
Um dos sócios da Blackbird, Ricardo Servilha, disse à reportagem que o contrato que assumiu da Acto foi executado corretamente e que durou ‘poucos meses’.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)
Midiamax
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