Na Newsletter: Os lucros pornográficos da Petrobras, desmate em queda livre e licenciamento no STF

A expressão inglesa windfall (literalmente, “derrubado pelo vento”) significa bonança inesperada, como uma fruta que cai do pé após um golpe de ar.

Foto: Arquivo

Em finanças, ela é usada para qualificar lucros extraordinários, quando as circunstâncias de operação de uma empresa mudam e ela ganha mais sem fazer nada. São os windfall profits, ou lucros trazidos pelo vento.

Não é pouca ironia, portanto, que na última quinta-feira (6), véspera do ciclone-bomba que atingiu o Sul e matou uma pessoa, a Petrobras tenha divulgado um recorde de lucro trimestral: R$ 52,4 bilhões entre abril e maio, o dobro do mesmo período do ano passado, cortesia da alta do preço do petróleo na esteira guerra no Irã.

É de fato um lucro trazido pelo vento – os vendavais provocados pelo excesso de energia numa atmosfera aquecida pela queima de combustíveis fósseis.

As petroleiras ficam com o dinheiro, todos nós ficamos com os impactos.

A alta no petróleo fez o windfall profit das petroleiras disparar tanto que até o insuspeito Donald Trump disse que elas estavam ganhando demais.

Os lucros extraordinários das oito maiores empresas do ramo atingiram mais de R$ 470 bilhões no trimestre, ou R$ 1,4 milhão por minuto, nas contas do jornal The Guardian.

Executivos da indústria como a presidente da Petrobras podem mentir à vontade que essa bolada vai para “bancar a transição energética”, mas ela vai mesmo é para o bolso dos acionistas.

Apenas em dividendos, a petroleira pagará R$ 17,4 bilhões pelo lucro do trimestre, como você lerá nesta edição da newsletter.

O Brasil até taxou a bonança no começo do ano, mas o fez para subsidiar o óleo diesel e evitar mais inflação, não para transitar para longe dos combustíveis fósseis.

Ao contrário, para gozo de Magda Chambriard e outros petrocratas, nós aumentamos a produção e a exportação de petróleo no primeiro semestre, e rumamos céleres para o posto de quarto maior produtor de óleo e gás de um planeta que, segundo a ciência, terá superado permanentemente o aquecimento global de 1,5oC quando chegarmos lá.

Todo dia será um 2024, mas os acionistas da Petrobras estarão ricos. Sorria, e ligue o ar-condicionado se tiver um.

Os europeus, que atravessam a quarta onda de calor recorde em três meses, estão percebendo a falta que esse aparelho faz. E isso porque o super-El Niño mal botou as asas de fora.

Como contradição pouca é bobagem, o mesmo governo cujo setor de energia literalmente joga mais gasolina na fogueira da crise do clima também é capaz de entregar a melhor notícia ambiental do ano: os alertas de desmatamento na Amazônia, divulgados ontem pelo presidente Lula (que foi capaz de, no mesmo discurso, se dizer a pessoa mais preocupada com a questão climática no mundo e tecer loas à Petrobras), foram os menores da história em 2026.

É a prova de que o país sabe controlar a devastação e de que zerar o desmatamento é possível, mesmo com safras recorde e com o agro ganhando mais dinheiro do que nunca.

Os números do sistema Deter, do Inpe, apontam para a possibilidade de Lula 3 terminar com a menor taxa de desmatamento na floresta desde o início das medições.

Tem que manter isso aí. Boa leitura.

País conta com o STF para barrar retrocessos ambientais

Corte julga a partir da semana que vem ações contra marco temporal, desmonte do licenciamento e fim da moratória da soja

Foto: Rafael Medelima

O Congresso anda empenhado em descobrir até onde pode ir quando o assunto é desmontar a proteção ambiental brasileira. Contando com o desequilíbrio de forças que impera no Parlamento, a bancada ruralista tem feito o que bem quer, mesmo quando suas decisões contrariam os anseios da sociedade e os preceitos constitucionais.

As tentativas do Executivo de conter a boiada tampouco têm surtido efeito: derrotado no Congresso, o governo vê as matérias serem judicializadas, com o STF atuando como última barreira contra o desmonte das normas socioambientais do país.

A partir da próxima semana, a Suprema Corte passa a analisar ações sobre três temas fundamentais para os direitos das populações originárias e a proteção da natureza: o Marco Temporal Indígena, a Moratória da Soja e a Nova Lei do Licenciamento Ambiental, pedra angular da proteção ambiental brasileira que foi desfigurada pelos parlamentares há um ano.

O Observatório do Clima detalha aqui as ações que serão analisadas pelo STF na Pauta Verde do Supremo em agosto. Uma coletiva realizada pelo OC, Greenpeace, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e Instituto Socioambiental (ISA) também ajuda a explicar o que está em jogo.

Promover retrocessos ambientais não é uma novidade no Legislativo brasileiro, mas a dimensão e a velocidade com que isso vem acontecendo têm espantado.

Neste momento, não há no Brasil outro grupo que trabalhe de forma tão obstinada pelo desmonte da proteção ambiental quanto a bancada ruralista.

Quando o Legislativo abandona seu papel constitucional, atropela o Executivo e despreza os apelos da sociedade, cabe ao Judiciário restaurar o equilíbrio entre os Poderes.

Assim, o STF se tornou a última barreira contra retrocessos socioambientais no país. É esse o papel que esperamos que o Supremo exerça nas próximas semanas.

Foto: Gil Ferreira/STF

“Vou mandar pro Trump”

Alertas de desmatamento despencam e agro prepara contra-ataque

Os alertas de desmatamento na Amazônia caíram 36% em 2026, atingindo a menor área da história: 2.874 km2.

Os dados são do sistema Deter, do Inpe, e foram lançados nesta sexta-feira na sede do instituto com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se a mesma tendência se mantiver nas análises do Prodes, que dá a taxa oficial de desmate, o Brasil terá no último ano de Lula 3 a menor taxa de devastação registrada desde o início das medições por satélite, em 1988.

À vontade no lançamento e embalado pela boa notícia, Lula falou de improviso, puxou o cabelo comprido do presidente do Ibama, Jair Schmidt (dizendo “aqui tem mata preservada!”), disse que ninguém no mundo se preocupa mais do que ele com a crise climática e aproveitou para espezinhar os Estados Unidos, que usaram o desmatamento como desculpa para tarifar o Brasil: “Depois vou pedir para colocarem os números de novo [na tela].

Quero tirar uma fotografia para mandar para o Trump”, afirmou o presidente. É bom tirar logo a tal foto, porque o agronegócio vem reagindo às ações de comando e controle do Ibama.

Além de terem assassinado o licenciamento (assassinato que, como você leu acima, está sendo analisado pelo STF), os ruralistas no Congresso passaram na Câmara uma lei para acabar com a fiscalização por satélite e preparam para o mandato que vem um ataque coordenado ao Código Florestal.

É um movimento semelhante ao que ocorreu no segundo governo Lula, quando o aperto nos desmatadores estimulou uma mudança na legislação ambiental e interrompeu o ciclo de queda do desmatamento quando este havia atingido o mínimo histórico de 4.500 km2.

A história pode se repetir, só que da segunda vez também como tragédia.

Enquanto isso…

Desmate explode na bolívia, levado por mãos brasileiras

Reportagem especial da Bloomberg mostrou que, enquanto o desmatamento despenca no Brasil, na vizinha Bolívia ele explode a patamares inéditos.

E os responsáveis, vejam só, são fazendeiros brasileiros, que querem implantar no país ao lado o modelo Mato Grosso de agricultura extensiva, lucrativa e destrutiva.

Tudo sob estímulo financeiro e de infraestrutura do Estado brasileiro e do governo mato-grossense.

Hahahahaha, mas eu tô rindo à toa

lucro de petroleiras dispara no 2º trimestre enquanto mundo tosta

A alta do preço do petróleo na esteira da guerra feita por Donald Trump e pelo genocida Binyamin Netanyahu contra o Irã levou os lucros extraordinários das empresas de petróleo a uma disparada igualmente extraordinária.

Segundo o The Guardian, as oito maiores petroleiras do mundo embolsaram US$ 93 bilhões apenas entre abril e junho deste ano. É quase o dinheiro prometido por ano até 2025 em financiamento climático para todos os países em desenvolvimento.

Tudo isso enquanto o hemisfério Norte torra em ondas de calor sequenciais e o Sul se acaba em vendaval. Artigo do projeto A Petrobras de que Precisamos mostra que, por aqui, a tendência foi a mesma.

A Petrobras lucrou no trimestre abril-junho duas vezes mais do que no mesmo período do ano passado. 

Crônica de gelo e fogo

Sibéria é a campeã de incêndios florestais

O Canadá e os Estados Unidos chamam a atenção, mas neste agosto a região campeã mundial de incêndios florestais é a desabitada Sibéria.

A outrora gelada e imensa região leste da Rússia aparece nas imagens de satélite como principal emissora global de carbono por queimadas: quase quatro vezes mais do que os EUA, o segundo colocado.

A primeira semana de agosto termina com 15 regiões do planeta registrando emissões de carbono provenientes de incêndios florestais muito acima do normal, segundo o Fire Emissions Watch.

A savana africana, as florestas de turfa da Indonésia e a fronteira da Índia com o Paquistão também ardem em chamas.
Aqui se faz, aqui se apaga

Europa arde, mas se recusa a responsabilizar petroleiras

Continente que tem liderado os extremos de calor nos últimos meses e registrado recordes de incêndios florestais e secas em rios que estão exumando até mamutes e navios nazistas, a Europa segue fazendo cara de paisagem na hora de apontar os responsáveis pela crise.

O ranking das “Carbon Majors” mostra que quatro das 20 maiores responsáveis, atuais e históricas, pelo aquecimento global são europeias: as britânicas BP (6º lugar) e a extinta British Coal Corporation (13º), a anglo-holandesa Shell (7º) e a francesa TotalEnergies (15º).

Nenhum líder europeu que discursou prometendo agir contra os incêndios lembrou delas.

Esse pico que não chega

China tem novo recorde de termelétricas a carvão

Maior produtor e consumidor de energia renovável do planeta, a China bateu no semestre passado o recorde de maior número de novas usinas termelétricas a carvão mineral dos últimos dez anos.

Segundo análise do Crea (Centro para Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo), a geração a carvão cresceu 3,4% no primeiro semestre de 2026, revertendo a tendência de queda de 2005.

O Crea aponta risco de o carvão se tornar uma barreira à integração de renováveis na matriz chinesa. Por outro lado, o crescimento das renováveis e da eletrificação ajudou a China a compensar boa parte da queda no fornecimento de petróleo após a guerra no Irã.

93 bilhões de dólares foi o lucro das 8 maiores petroleiras do mundo no segundo trimestre de 2026


90 km/h é a velocidade do vento prevista em parte do Brasil hoje como consequência do ciclone-bomba


Na playlist

Tomou posse nesta semana o novo presidente da Colômbia, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, que promete reverter toda a política climática de Gustavo Petro que tornou o nosso vizinho um líder climático global.

A cerimônia aconteceu no mesmo dia em que foram lançados os três trilhos de trabalho da conferência de Santa Marta para o fim dos combustíveis fósseis.

Em solidariedade aos colombianos, ficamos com Maligno, da dupla bogotana Aterciopelados.

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